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1822–1882

CANTO XV

José Pedro Xavier Pinheiro

Quanto caminho faz da tércia hora, No giro seu, a luminosa esfera, — Sempre a mover-se qual criança — à aurora, Tanto, para acabar o curso, espera

O sol, e para dar à tarde entrada: Lá vésperas, aqui meia-noite era. De luz me estava a face então banhada; Porque, em torno à montanha prosseguindo,

Do ocaso em direção ia a jornada, Quando, mais vivo resplendor fulgindo, Ofuscado fiquei mais do que dantes: Desse portento a ação pasmei sentindo.

Acima de meus olhos, por instantes, As mãos alcei — sombreiro, que antepara O mor excesso aos raios deslumbrantes. Assim como de espelho ou linfa clara

Ressalta a luz de encontro à oposta parte, Subindo logo após, como baixara; Da linha vertical não se disparte, Uma distância igual sempre mantendo,

Como nos mostra experiência e arte: Em frente à luz, assim, se refrangendo, Tão penetrante a vista me feria, Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.

“Qual é” — ao Mestre amado então dizia — Aquele objeto, que me ofusca tanto E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?” — — “Que inda te ofusque não te mova espanto

A celeste família” — me há tornado: — “Falar-te vem um mensageiro santo. “A veres com delícia aparelhado Serás em breve um lume refulgente,

Quanto ser pode ao ente humano dado.” — Acercados ao anjo, alegremente Nos disse: — “Aqui passai, menos penosa Subida nesta escada está patente.”

Andando, atrás cantar em voz donosa Beati Misericordes nós ouvimos E “Exulta na vitória gloriosa”, Para cima, portanto, nós subimos;

E eu das vozes do Vate cogitava Colher proveito, enquanto sós nos imos. E, me voltando, assim lhe perguntava: “O que Guido del Duca nos dizia,

Quando em bens não partíveis nos falava?” — — “Do seu vício pior” — tornou — “sabia Os danos; não se estranhe, se o acusando, Do mal que fazer possa prevenia;

“Porque, do mundo os bens vós desejando, A que partilha todo o apreço tira, Arde a inveja, suspiros provocando. Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,

Levantando-se o anelo àquela altura, Esse temor no peito voz expira. “Tanto mais lá cad’um goza ventura, Quanto por muitos ela mais se estende,

Quanto mais caridade lá se apura.” — — “O entendimento” — eu digo — “ora compreende Menos do que antes de eu te haver falado; À mente ora mor dúvida descende.

“Como um bem, que é de muitos partilhado, A cada possessor dá mais riqueza Do que se a posse fora apropriado?” — — “Teu spírito” — replica — “na rudeza

Das cousas terreais stando imergido, Vê trevas onde a luz tem mais clareza, “Esse inefável bem, no céu fruído, Infindo, para o amor, correndo desce,

Qual raio a corpo lúcido e polido. “Se ardor acha mais vivo, mais se of’rece; Quanto mais caridade está fulgindo, Virtude eterna mais sobre ela cresce.

“Quanto mais vai a multidão subindo, Mais amar podem, mais a amor se aplicam, Bem como espelho, um no outro refletindo. “Se persistindo as dúvidas te ficam,

Hás de ver Beatriz: da sábia mente Razão escutarás, que tudo explicam. “Para apagares, pois, sê diligente. As chagas cinco, que inda em ti stou vendo:

Há de cerrá-las contrição pungente.” — Quando eu ia dizer — Mestre, compreendo — No círculo eis penetro imediato: Calei-me, a vista alucinada tendo.

Julgava então, de uma visão no rapto, Extático, que em templo se mostrava Multidão grande, de oração no ato. Com piedoso semblante, à entrada estava

Meiga matrona. — “Ó filho meu querido, Por que assim procedeste?” — interrogava. “Eu e teu pai, com ânimo dorido, Te buscamos.” — E como se calara,

Logo a visão fugiu-me do sentido. Depois de outra no rosto se depara Pranto acerbo, que mágoas anuncia De quem de ira no incêndio se inflamara.

“Se mandas na cidade” — assim dizia — “Por cujo nome os deuses contenderam E onde a luz da ciência se irradia, “Pune os braços, que ímpios, se atreveram,

Pisístrato, a estreitar a filha tua!” — Ele, a quem vozes tais não comoveram, Tranquilo respondia à esposa sua: “O que faremos a quem mal nos queira,

Se ira ao amor corresponder tão crua?” Vi depois multidão, que a raiva aceira: A pedradas mancebo assassinava, Bradando — morra! morra! — carniceira.

A dolorida fronte debruçava, Já mal ferido, o mártir para a terra: Portas ao céu os olhos seus tornava, Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,

Que aos seus perseguidores perdoasse: Riso piedoso os olhos lhe descerra. Quando em minha alma o êxtase desfaz-se, Conheci que no sonho aparecia,

Não da ficção mas da verdade a face. Virgílio, a quem talvez eu parecia Homem, que o sono deixa de repente, — “Por que estás vacilante?” — me inquiria.

“Tens meia légua andado certamente Com titubante pé, de olhos caídos, Como quem desse ao vinho ou sono a mente.” — — “Vou expor, meu bom mestre, aos teus ouvidos” —

Tornei — “quanto os meus olhos contemplaram, Quando os joelhos tinha enfraquecidos.” — “Se másc’ras cento a face te ocultaram” — Disse Virgílio — “ocultos não seriam

Pensamentos, que, há pouco, te enlevaram. “As imagens, que hás visto, te induziam Águas da paz a receber no peito, Que as fontes perenais dos céus enviam.

“Não perguntara, como quem de feito Somente vê por olhos, obcecados Quando o corpo da morte jaz no leito; “Mas por serem teus pés mais apressados:

Excitar assim cumpre os preguiçosos, Que se esquivam à ação stando acordados.” — Nas horas vespertinas pressurosos Andávamos, os olhos alongando,

Do sol cadente aos raios luminosos, Eis pouco a pouco, um fumo se elevando. Se condensa ante nós, qual noite, escuro; Abrigo ali de todo nos faltando,

A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.

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