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1822–1882

CANTO XIII

José Pedro Xavier Pinheiro

Da escada ao topo havíamos chegado, Onde, outra vez cortado, o monte estreita, Que alma sobe, expiando o seu pecado. Como a primeira, outra cornija feita

Circundava a colina, só dif’rente Em que a um arco menor ela se ajeita. Relevo, formas, como a precedente, Não mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,

Lívida cor a pedra tem somente. — “Se a presença de alguém fosse esperada, Que nos preste conselho” — diz meu Guia — “Temo que fique a escolha retardada.” —

Os olhos para o sol depois erguia, E, sobre o pé direito se firmando, Para a esquerda girava e se volvia. — “Tu, de quem tudo fio, ó lume brando

No caminho conduz-nos que se of’rece Como o exige o lugar” — disse — “guiando! “Raiando, o teu calor o mundo aquece: Se motivo não surge de embaraço,

De conduzir-nos teu fulgor não cesse!” Vencido em breve tínhamos espaço, Que por milha na terra calculamos, Porque o desejo estimulava o passo:

Em direitura a nós voar julgamos Invisíveis espíritos, chamando De amor à mesa em lépidos reclamos. A voz primeira que passou voando,

Vinum non habent proferiu sonora E ainda muito além foi reiterando. Mas antes de perder-se pelo ar fora, Outra acercou-se. — “Orestes sou!” — dizia;

E apartou-se igualmente sem demora. — “Que vozes estas são, Mestre?” — inquiria. Mas, apenas falara, eis vem terceira. — “Amai imigos vossos!” — eu lhe ouvia.

— “Pune este círc’lo a culpa traiçoeira” — O Mestre diz — “da inveja; o açoite aplica O amor, que os rigores lhe aligeira. “Contrário som, porém, o freio indica.

Antes que atinjas do perdão a entrada, Terás de ouvi-lo; e disto certo fica. “Tem ora a vista para além fitada; De espíritos, ao longo do alto muro,

Assentados verás soma avultada.” — Mais que de antes então a vista apuro; Almas distingo, que envolviam mantos, Que a cor imitam do penhasco duro.

Um pouco avante ouvi de esp’ritos tantos A voz bradar: — “Por nós orai, Maria, Pedro, Miguel e todos os mais Santos!” Na terra homem tão fero não seria,

Que não sentisse o coração pungido Em vendo o que aos meus olhos se of’recia. Acerquei-me por ser mais distinguido De cada sombra o menear e o gesto:

Pelos olhos à dor alívio hei tido. Então foi claramente manifesto Que entre si, uns aos outros se arrimavam, Todos à pedra, em seu cilício mesto.

Assim os pobres cegos mendigavam Nos dias de Perdão da igreja à porta, Mutuamente as cabeças encostavam; Pois a piedade o coração nos corta,

Quando ao som das palavras se acrescenta Da vista a ação que o peito desconforta E como o sol aos cegos não se ostenta, Assim também às sombras que alivia,

Não mais do céu a luz olhos alenta. Fio de ferro as pálpebras prendia A todas, como ao gavião selvage Para domar-lhe a condição bravia.

Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje, Lhes vendo as faces e ocultando a minha: E o Mestre olhei em tácita linguage. E o Mestre, bem sabendo o que convinha,

Antecipou-se logo ao meu desejo E disse: — “Arguto sê, e fala asinha.” — Virgílio caminhava neste ensejo Do lado, onde à cornija falta amparo;

Dali cair se pode e o risco eu vejo. As almas do outro lado eram; reparo Que dos olhos a hórrida costura Provoca pranto copioso e amaro.

Voltei-me e disse: — “Ó almas, que a ventura De ver tereis ao certo o excelso Lume; De que somente o vosso anelo cura, “Dissolva a Graça em vós todo o negrume

Da consciência e nela manar faça Da mente o rio em límpido corrume! “Concedei-me o que mais me satisfaça: Dizei-me qual de vós latina há sido;

De eu sabê-lo algum bem talvez lhe nasça.” — — “Por pátria, irmão, só hemos conhecido A cidade de Deus: dizer quiseste Peregrina na Itália haja vivido.” —

De mim remota a voz parece deste, Que assim disse; e portanto, passo avante Por saber certo a quem atenção preste. E uma sombra entre as mais vi, que, distante,

Aguardava-me. E como eu distingui-a? Qual cego, alçava o mento pra diante. — “Tu, que para subir penas” — dizia — “Quem foste, onde nasceste diz: te imploro,

Se é tua voz que, há pouco, respondia.” — “Fui de Siena” — tornou — “com este choro Os graves erros de perversa vida, E a Deus que se nos dê, clemente, exoro.

“Chamei-me Sápia, mas não fui sabida. Mais deleite me deu o alheio dano Do que a dita a mim própria concedida. “E por que não presumas que te engano,

Se fui louca verás pelo que digo. Já no declínio do viver humano “Eu era, quando a rebater o imigo Em Colle os meus patrícios campearam;

A Deus roguei que lhes não fosse amigo. “Destroçados, à fuga se lançaram, E a mim, que estava aquele transe vendo, Indizíveis prazeres me tornaram,

“Em modo, que atrevida, olhos erguendo, — “Não mais Deus tenho!” — contra o céu gritava Qual melro, instantes de bonança tendo. “Com Deus quis paz, mas quando já tocava

Da vida o termo; e ainda não pudera A dívida solver, que me onerava, “Se Pedro Pettinanho não se houvera, Nas santas orações de mim lembrado:

Em prol meu, caridade o comovera. “Mas quem és, que nos tens interrogado, Que estando, creio, de olhos não tolhidos E respirando indagas nosso estado?” —

— “Olhos” — disse — “terei também cerzidos, Porém por pouco tempo; que da inveja No mundo hão sido rara vez torcidos, “Maior receio o peito me dardeja

De outro tormento; e tanto me angustia, Que o seu fardo a sentir cuido já steja.” — — “Mas quem ao monte” — me tornou — “te guia, Pois de voltar ao mundo tens certeza?” —

— “Quem tenho ao lado e voz não pronuncia. “Inda vivo; e, pois fala com franqueza, Alma eleita, se queres que os pés mova Em prol teu lá na terra com presteza.” —

— “O que dizendo estás, cousa é tão nova Que por mim rogues fervorosa peço, Pois da divina dileção dás prova. “E pelo que te merecer mais preço

Suplico-te: ao pisar terra toscana Ao meu nome entre os meus aviva o apreço. “Terás de vê-los entre a gente insana, Que espera em Talamone, mas como antes,

Quando buscava as águas do Diana: Mor engano há de ser dos almirantes.” —

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