Skip to content
1822–1882

CANTO XII

José Pedro Xavier Pinheiro

A par, como dois bois, que o jugo unira, Eu com essa alma opressa e titubeante Ia, enquanto Virgílio permitira. Eis disse-me: — “Deixando-a, segue avante:

Deve fazer de vela e remos força Quem quer à parca impulso dar constante.” — A caminhar dispus-me à voz, que esforça, Erguendo logo o corpo, inda que a mente

Na humildade a modéstia acurve e estorça. Já os pés acelero e facilmente A Virgílio acompanho: de porfia, Se mostra cada qual mais diligente.

— “À terra olhos inclina” — então dizia — “Para a jornada aligeirar atenta No solo, onde o meu passo aos teus é guia.” Assim como na campa se aviventa

A memória dos mortos, insculpindo Imagem, que a existência representa, Que de saudade os corações ferindo, À piedade propensos e à ternura,

Os vai ao pranto muita vez pungindo: Assim, com perfeição sublime e pura, Figuras via sobre aquela estrada, Que sobe, serpeando, pela altura.

Via, a um lado, dos céus precipitada Das criaturas a mais bela e nobre, Qual raio, pelo espaço arremessada. A vista, o outro, Briaréu descobre

De projétil celeste transpassado: Gélido a terra desmedido cobre. Com Marte e Palas stava figurado Timbreu, em torno ao pai de armas fornidos,

Vendo o campo de imigos alastrado. Nemrod olhos volvia espavoridos, Junto à feitura imensa, aos companheiros, Que a Sanaar seguiram-no, descridos.

Ó Níobe, com braços verdadeiros Que dor nos olhos teus aparecia, Os filhos mortos vendo, quais cordeiros! Saul, a própria espada te extinguia

Sobre a montanha Gelboé — maldita, Orvalho ou chuva ali não mais caía. Ó louca Aracne, tua face aflita, De aranha parte entre os destroços stava

Da teia, origem da fatal desdita. Não mais a tua imagem cominava; Num carro foges, Roboam cruento, À fúria popular, que te assombrava.

Amostrava ainda o duro pavimento Como fez Alcmeon pagar tão caro À mãe o funestíssimo ornamento. Mostrava mais como flagício raro

Senaqueribe no templo assassinado Por filhos, que deveram ser-lhe amparo. Mostrava também Ciro degolado E Tamíris dizendo acesa em ira

— Sede tinhas de sangue, sê saciado! — A multidão de Assírios que fugira, Mostrava ao verem de Holoferne a morte, E o castigo que os passos lhes seguira.

Via no pó, nas cinzas Tróia forte: Ó soberba Ílion, a pedra dura Mostrava a tua lamentável sorte! Que mestre no pincel ou na escultura

Posturas, sombras tais traçar pudera, Pasmo ao gênio, que atinja a suma altura? Real ou morte ou vida aos olhos era: A verdade não viu na própria cena

Melhor que eu quando a efígie a olhar stivera. A fronte entonai, pois, de orgulho plena, Ó filhos de Eva, os olhos não baixando Ao caminho, onde achais devida pena!

Mais íamos no monte caminhando E no seu giro o Sol mais avançara Do que eu cuidava, absorto contemplando, Quando aquele, que sempre me guiara

Desvelado, me disse: — “Alça a cabeça! Não te engolfes! atento sê! repara! “Olha aquele anjo que caminha à pressa Ao nosso encontro: acaba a terra sexta

Do dia o lavor certo e outra começa. “Reverência em teu gesto manifesta Para o anjo à viagem ser propício, Não volta o dia de que pouco resta.” —

Aproveitar do tempo o benefício Era do Mestre a regra; e, pois, naquela Matéria não lhe achei de obscuro o indício. Já nos demanda a criatura bela:

Trajava branco, a face resplendia, Qual, tremulando, matutina estrela. Braços abria e asas estendia, Dizendo: — “Vinde! que os degraus stão perto:

A jornada já fácil se anuncia.” — Raros escutam essa voz, por certo: Ó gente humana, para o céu nascida, Por que decaís do vento a um sopro incerto?

Imos à rocha, por degraus partida: De uma das asas me roçou na fronte, Prometendo-me próspera subida. Como à direita quem se erguer ao monte,

Donde se avista a igreja que domina A bem regida ao pé de Rubaconte, Sente que aos pés a ingremidade inclina Pela escada talhada antes que houvesse

Em livros e medidas a rapina: Adoça-se o pendor assim; pois desce De um círc’lo a outro a rocha que alterosa A um lado e ao outro augusto passo of’rece.

Subindo em melodia tão donosa Beati pauperes spiritu escutamos, Que a voz, que o diga é pouco vigorosa Quão dif’rentes os áditos que entramos,

Dos infernais! Aqui suave canto, Lá gritos de ira ouvindo caminhamos. Vencendo esses degraus do monte santo Mais ágil me sentia: lá no plano

Fácil nunca a jornada fora tanto. Eu disse: — “Ó Mestre, de que peso insano Sinto-me livre, pois no estreito passo, Como de antes agora não afano!” —

— “Quando os PP que inda tens em vivo traço Sobre a fronte” — tornou-me — “se apagarem, Como não hás de ter mais embaraço, “Segundo o teu desejo os pés andarem

Sentirás sem fadiga, e até gozando Deleite, para a altura ao caminharem.” Como o que traz, na praça passeando, Cousa, que ignora, na cabeça posta,

E, por ver sinais de outrem, suspeitando, À mão pede socorro; ela, em resposta, Procura, acha, um serviço assim rendendo, A que a vista não pode ser disposta:

Assim, da destra os dedos estendendo, Conheci que das letras, que o anjo abrira, Stavam somente seis remanescendo. Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
CANTO XII · José Pedro Xavier Pinheiro · Poetry Cove