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1822–1882

CANTO XI

José Pedro Xavier Pinheiro

Vós, que nos céus estais, ó Padre nosso, Não circunscrito, mas porque haveis dado Mais aos primeiros seres o amor vosso, “Vosso nome e poder seja louvado!

Graças à criatura jubilosa Ao saber vosso renda sublimado! “Do reino vosso a paz venha ditosa! Que vão de havê-la o empenho nos seria,

Se não vier da vossa mão piedosa. “Como a vós a vontade se humilia Dos vossos anjos, entoando hosana, Façam assim os homens cada dia!

“A substância nos dai quotidiana Hoje: sem ela em áspero deserto Se atrasa quem por ir além se afana! “E como a quem nos faz mal descoberto

Damos perdão, nos perdoai clemente, Indi’nos sendo nós, Senhor, por certo. “Oh! não deixeis cair a defidente Virtude nossa em tentação do imigo!

Livrai-nos dele, em nos pungir ardente! “Não mais somos, Senhor, nesse perigo, Em que precisa esta oração nos seja; Mas não os que hão mister na terra abrigo.” —

Ao céu rogando que ao seu bem proveja E ao nosso, as almas sob o peso andavam, Como o que oprime a quem sonhando esteja. Com desigual gravame se arrastavam

Ofegantes no círculo primeiro, E do pecado as névoas expurgavam, Se em bem nosso com zelo verdadeiro, Oram, como em seu prol fará no mundo

Quem tem no bem querer seu peito useiro? Ajudemo-las, pois, vestígio imundo A lavar, por que leves, puras sejam, Do céu se alando ao brilho sem segundo.

“Ah! compaixão, justiça vos consigam Presto alívio, e possais, o vôo erguendo, Ir até onde os desejos vos instigam! “Valei-nos a vereda nos dizendo

Mais curta ou a que é menos escarpada, Mais de um caminho a se ascender havendo. “Ao companheiro meu assaz pesada É a carne de Adam, que inda o reveste:

Por mais que esforce, o afana esta jornada.” — A voz, que respondeu ao Mestre a este Dizer, não sei a que alma pertencia Por indício qualquer, que o manifeste:

— “Vinde à direita em nossa companhia Pela encosta, e vereis o passo estreito, Que uma pessoa viva subiria. “Se este penedo não tolhesse o jeito,

A cerviz orgulhosa me domando E obrigando a juntar o rosto ao peito, “Deste homem para a face, atento olhando, (Não sei quem é) talvez o conhecera,

E assim me fora compassivo e brando. “Toscano fui, ilustre pai tivera. Guilherme Aldobrandeschi se chamava: O nome seu algum de vós soubera?

“Tanta arrogância a glória me inspirava Do meu solar e os feitos valorosos, Que a nossa mãe comum não mais pensava, “Olhos volvendo a todos desdenhosos.

Perdi-me assim; os atos meus em Siena Foram em Campagnatico famosos. “Chamei-me Umberto; da soberba a pena A mim não coube só: de igual desgraça

Vem a causa que aos meus todos condena. “Este fardo, que os passos me embaraça Mereço, por cumprir-se a lei divina: Vivo o não fiz, é justo que ora o faça.” —

Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina, Uma das almas (não a que falava) Sob o peso se torce, que a amofina. E viu-me e, conhecendo-me, chamava,

Os olhos seus fitando esbaforida Em mim, que, recurvado a acompanhava. — “Oderisi não foste” — eu disse — “em vida, Honra de Agubbio, honra daquela arte

Que Paris ora apelida?” — — Tornou-me: — “Hoje o pincel (cumpre informar-te) De Franco de Bolonha mais agrada: A honra é toda sua, minha em parte.

“Por mim não fora em vida proclamada Esta verdade, quando esta alma ardia Na ambição de primar nessa arte amada. “Aqui de tal soberba o mal se expia;

Staria alhures; mas a Deus eu pude Mostrar que de pecar me arrependia. “Quanto a vaidade o peito humano ilude! Dessa flor como esvai-se a formosura,

Se não seguir-se um séc’lo inculto e rude! Cimabue cuidou ter na pintura A liça dominado: mas vencido Ficou: a glória Giotto fez-lhe escura.

Assim de estilo na arte cede um Guido, A palma a outro: agora é bem provável Seja de ambos o mestre já nascido. “Rumor mundano é como vento instável

Que a direção varia de repente: Conforme o lado, o nome tem mudável. “De ti que fama ficará manente, Se da velhice cais no extremo passo,

Ou se findas na infância inconsciente, “De hoje a mil anos, tempo mais escasso, Da eternidade em face, que um momento Ante a esfera a mais tarda lá no espaço?

“Quem me precede e vai assim tão lento Na Toscana entre todos foi famoso: Apenas salvo está do esquecimento. “Em Siena, que há regido poderoso,

Quando perdeu-se a raiva florentina. Soberba então, objeto hoje asqueroso. “A fama vossa iguala-se à bonina, Que flore e morre: o sol, por quem nascera

Na terra a prostra e a cor cresta à mofina.” — Respondi-lhe: — “O dizer teu em mim gera Saudável humildade e o orgulho mata. Esse, que apontas, conta-me quem era.” —

“De Provenzan Salvani” — diz — “se trata: Aqui stá, porque Siena ele cuidara Ter nas mãos — presunção de alma insensata! “Caminha assim curvado, e nunca pára

Dês que a vida perdeu eis o castigo De quem tanto à soberba se entregara!” — — “Se o que demora até final perigo A penitência” — eu disse — “e errado corre,

Subir não pode e aqui não acha abrigo, “Se uma oração piedosa o não socorre, Durante prazo igual ao da existência, Como ao martírio Provenzan concorre?” —

— “Quando era” — torna — “no auge da influência, Sobre a praça de Siena, suplicando, Ter ante o povo humilde continência, “De um amigo o resgate procurando,

Que era por Carlos em prisão detido, Tremeu angustiado e miserando. “Não mais: não sou, de obscuro, compreendido, Mas te há de ser em breve isto explicado

Por filhos dessa terra em que hás nascido. — “Por tão bom feito o ingresso lhe foi dado.”

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