Skip to content
1822–1882

CANTO X

José Pedro Xavier Pinheiro

Entra Virgílio por vereda estreita, Que entre o muro e os martírios vai seguindo: Após os seus meu passo se endireita. — “Virtude suma! Ó tu, que, dirigindo

Me estás, ao teu sabor na estância triste, Me instrui, ao meu desejo deferindo. “A gente ver se pode que ora existe Naquelas sepulturas descobertas,

A que nem guarda, nem defesa assiste?” — — “Serão” — me respondeu — “todas cobertas No dia, em que, de Josafá tornando, Os corpos tragam, de que estão desertas.

“Epicuro aqui jaz com todo o bando Dos discípulos seus, que professaram Que alma fenece, a vida em se acabando. “O que as tuas palavras declararam

Satisfeito há de ser, como o que vejo Dos votos que em teu peito se ocultaram”. — — “Não te expus, meu bom Mestre, quanto almejo, Porque de breve ser tenho o cuidado,

E a mais longo dizer não deste ensejo”. — — “Ó Toscano, que, vivo hás penetrado Do fogo na cidade e és tão modesto, Detém-te um pouco, se te for de agrado.

“Por teu falar me está bem manifesto Que nessa nobre pátria tens nascido, A que fora eu talvez assaz molesto”. — Ouço este som, de súbito saído

De um dos jazigos: tanto eu me torvara, Que ao Mestre me achegava espavorido. — “Que temes tu?” — Virgílio diz — “Repara: É Farinata em seu sepulcro alçado,

Do busto em toda a altura, se depara”. — Na sombra os olhos tinha eu já fitado: Altiva levantava a fronte e o peito, Como em desprezo do infernal estado.

Por entre as tumbas me levou direito Ao vulto o Mestre com seu braço presto, Dizendo-me: — “Sê claro em teu conceito!” — Junto ao sepulcro apenas fui, com gesto

Severo um pouco olhou-me e desdenhoso — “Teus maiores?” — falou — “Faz manifesto”. Eu, já de obedecer-lhe desejoso, Quanto sabia expus-lhe francamente.

O sobrolho arqueava um tanto iroso, E tornou: — “Guerra crua fez tua gente A mim, aos meus avós, ao meu partido; Mas duas vezes bani-os justamente”. —

— “Mas todos os que expulsos tinham sido Se hão, de uma e de outra vez repatriado: Não têm essa arte os vossos aprendido”. — Surgindo então de Farinata ao lado

Somente o rosto um vulto nos mostrava, Sobre os joelhos, cheio, levantado. Com ansiosos olhos me cercava A ver se alguém viera ali comigo.

Mas, perdida a esperança, que o animava, Pranteando inquiriu: — “Se ao reino imigo Por prêmio baixas do teu alto engenho, Onde é meu filho? Pois não vem contigo?

— “Por moto próprio aqui” — volvi — “não venho; Perto me aguarda quem meus passos guia, Vosso Guido talvez teve-o em desdenho”. A pena sua e as vozes, que lhe ouvia,

Denunciado haviam-me o seu nome: Pude assim responder quanto cumpria. Súbito ergueu-se o espírito e gritou-me: “Teve disseste: não mais vive agora?

O corpo seu a terra já consome?” Como eu tivesse em responder demora À pergunta, de costas recaía, E novamente não mostrou-se fora.

Mas esse outro magnânimo, que havia De antes falado não mudou de aspeito; No colo e busto imóvel persistia. — “Se aquela arte não dera ao meu proveito” —

Prosseguiu — “me produz esta certeza Maior tormento no adurente leito. “Porém vezes cinquenta a face acesa Não mostrará do inferno a soberana

Sem que tu saibas quanto essa arte pesa. “Assim possas voltar à vida humana! Contra os meus, diz, por que tanta maldade Em cada lei, que desse povo emana” —

Eu respondi: — “O estrago, a mortandade, Que do Árbia as águas de rubor tingira A cúria nossa move à austeridade”. — Inclinando a cabeça então, suspira

E diz: — “não fui lá só naquele dia, Nem sem motivo aos outros eu seguira. “Porém achei-me só, quando exigia De Florença a ruína o geral brado:

A peito descoberto eu defendia-a”. — — “Seja o descanso à vossa prole dado: Mas, vos suplico, de penoso enleio Fique o juízo meu descativado.

“Se bem percebo, do futuro ao seio Subindo e ao tempo o curso antecipando, Do presente ignorais todo o rodeio”. — — “Os que têm vista má nos semelhando” —

Tornou-me — “as cousas mais distantes vemos, De Deus última luz em nós raiando. “Quando estão perto ou no presente as temos Se apaga a lucidez, e a mente aprende

Por outrem só o que de vós sabemos. “Ciência nossa do porvir depende; Em sendo a porta do porvir cerrada, Essa luz morre em nós, não mais se acende”.

Então minha alma, de remorso entrada, “Dize” — replico — à sombra, a quem falava, Que o filho inda entre os vivos tem morada. Se presto lhe não disse o que exorava,

Da dúvida, que, há pouco, heis-me explicado Pela influência dominado eu stava”. — Se bem fosse do Mestre apelidado, Rogando a sombra a me dizer prossigo

As almas, de quem stava acompanhando. Respondeu: — “Muitos mil jazem comigo Aqui dentro, o Segundo Frederico, Com ele o cardeal, de outros não digo”. —

Dos olhos se apartou. A cismar fico, Voltando ao sábio Mestre, na ameaça Desse, que ouvira, vaticínio único. Ele caminha, e, enquanto avante passa,

Me diz: “Por que és torvado?” — Eu tudo conto Expondo o que me inquieta e me embaraça. — “Do que ouviste a memória cada ponto Conserva!” — o sábio ordena; e, logo, alçando

O dedo, segue: — “Agora escuta pronto. “Ante o doce raiar daquela estando, Que tudo aos belos olhos tem presente, Se irão da vida os transes revelando”. —

Moveu-se logo à esquerda diligente; Deixando o muro, ao centro caminhava Por senda, que descia ao vale horrente, Que hediondos vapores exalava.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
CANTO X · José Pedro Xavier Pinheiro · Poetry Cove