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1822–1882

CANTO VII

José Pedro Xavier Pinheiro

De doce afeto as mútuas mostras sendo Por três ou quatro vezes reiterado — “Quem sois?” — se retraiu Sordel dizendo. — “Tinha Otávio os meus ossos sepultado

Já quando a este monte se elevaram Almas que ao bem havia Deus chamado. Virgílio sou: do céu não me afastaram Pecados; me faltava a fé somente.” —

Do meu Guia estas vozes lhe tornaram. Como quem ante si vê de repente Maravilha: ora crê, ora duvida, E diz: — É certo ou minha vista mente? —

Assim essa alma. Dobra a frente erguida Humildemente, ao Vate se avizinha E lhe abraça os joelhos comovida. — “Ó glória dos Latinos!” — disse asinha —

Que ergueste a língua nossa a tanta altura! Honra eterna da amada pátria minha! “De ver-te o que me dá graça e ventura? Dize, se di’no de te ouvir hei sido,

De qual círculo vens da estância escura.” — “Tenho aqui” — Virgílio diz — “subido, Do triste reino os círc’los visitando, Sou do céu por virtude conduzido.

“Não por fazer, mas de fazer deixando, Ver o sol, que desejas, me é vedado: Conheci-o já tarde — ai miserando! “Lá embaixo um lugar foi destinado

Não a martírio, à treva onde há somente Suspiros, não gemer de angustiado. “Ali stou eu, no meio da inocente Grei, que a morte cruel mordeu, enquanto

Da culpa humana inda era dependente. “Com aqueles stou eu, em quem seu manto Três celestes virtudes não lançaram, Lhes dando à vista o mais suave encanto.

“Mas sabes se veredas se deparam Que ao Purgatório a entrada facilitem? Os indícios nos diz, se te constaram.” — Tornou: — “Lugar não há, que almas habitem

Aqui; na direção vou, que me agrada; Guiarei quanto os passos me permitem. “Mas vê: declina o dia; na jornada, Que fazeis, caminhar a noite veda:

Busquemos sítio a cômoda pousada. “À destra e à parte multidão stá queda: Iremos até lá, se acaso o queres, Talvez te seja a sua vida leda.” —

E o Mestre: — “Como? Pelo que proferes, Impossível será subir sem dia? Ou a alguém, que o proíba, te referes?” — Com seu dedo Sordel linha fazia

No chão e disse: — “Além ninguém passara Se, ausente o sol, a noite principia. “Mas óbice qualquer não deparara Quem caminhar, subindo, pretendesse:

Para tolhê-lo a noite já bastara. “Bem pudera baixar, se lhe aprouvesse, Pelo declive em volta da montanha: Enquanto o sol sob o horizonte desce.” —

Torna Virgílio, então, que ouvindo estranha: — “Ao lugar, que nos dizes, pois, nos guia, Onde a demora o júbilo acompanha.” — Pouco longe dali notei que havia

Depressão na montanha, semelhante À que na terra um vale formaria. — “Iremos” — disse a sombra — “um pouco avante Té onde a encosta encurva, se escavando:

De lá voltar vereis a luz brilhante.” — Entre a escarpa e o plano se inclinando Trilha ao vale conduz obliquamente, O pendor mais que ao meio, se adoçando.

Prata, alvaiade, grão, ouro fulgente, Índico lenho límpido e lustroso, Pura esmeralda, ao lapidar, luzente, Por flores e ervas desse val formoso

Se achariam na cor escurecidos Como cede o mais fraco ao mais forçoso. Aos donosos esmales espargidos Mil suaves aromas se ajuntavam,

Em peregrino muito reunidos. Sobre a relva entre as flores entoavam Salve Regina, as almas, que da vista Externa no recinto se ocultavam.

“Do sol enquanto a luz inda persista” — O Mantuano disse, que nos guia, “Ir não queiras à grei que de nós dista. “Gestos e vultos seus conheceria

Qualquer de vós daqui mais claramente Do que, de perto os vendo, o poderia. “O que parece, aos outros, eminente. Da quebra em seus deveres pesaroso

E a geral melodia ouve silente, “É Rodolfo que fora poderoso. Conta o mal que já tem a Itália morta: Quem lhe dará porvir esperançoso?

“O que com seu semblante ora o conforta Governava esse reino onde a água brota, Que o Molta ao Álbia, o Álbia ao mar transporta. “É Otocar: na infância melhor nota

Teve que o filho, Venceslau barbudo, Na luxúria e preguiça a vida esgota. “Morrendo, o que não tem nariz agudo E fala a esse outro de benino aspeito,

Deixou dos lizes deslustrado o escudo. “Atentai: como bate ele no peito! Vede aquele que ao ar suspiros lança Da mão fazendo à sua face um leito.

“Sogro e pai do flagelo são da França; Cientes do viver seu vergonhoso, Dor stão sentindo, que ora não descansa. “Esse membrudo, que o cantar piedoso

Segue do que nariz tem desmarcado, Das virtudes no culto foi zeloso. “Se o mancebo, ora atrás dele assentado, Ao trono sucedera-lhe, subira

Valor de um Rei por outro fora herdado. “Dos maus herdeiros qual pôs nisso a mira? Jaime Fred’rico havendo o reino tido, Nenhum a melhor parte possuíra.

“Rara vez tem nas ramas ressurgido Primor alto da estirpe; assim o ordena Aquele, a quem ser deve o bem pedido. “Ao narigudo aplicação tem plena

Meu dito e a Pedro, que ao seu lado canta: Apúlia com Provença, geme e pena. “Tanto ao seu fruto excede em preço a planta, Quanto, mais que Beatriz e Margarida,

Constança ações do esposo seu decanta. “Ali vedes o Rei de simples vida Sentado à parte, Henrique de Inglaterra: Teve este em ramos seus melhor saída.

“Mais abaixo notai sentado em terra Marquês Guilherme e para o alto olhando, Por quem, sofrendo Alexandria guerra, Montferrat, Canavese estão chorando.” —

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