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1822–1882

CANTO VII

José Pedro Xavier Pinheiro

“Hosannah Sanctus Deus Sabaoth, Superillustrans daritate tua Felices ignes horum malacòth!” Assim, voltando à melodia sua,

Cantar ouvi essa alma venturosa Em quem dúplice lume se acentua. Tornam todas à dança jubilosa, E súbito da vista se apartaram

Velozes, como flama fulgurosa. Disse entre mim, pois dúvidas me entraram: “Fala à senhora tua, fala; à sede Rocio as palavras suas te deparam.”

Torvação me assenhora e a voz me impede, Que apenas B com I C E conjugava: Acurvei, como quem ao sono cede. Mas Beatriz do enleio me tirava,

Com sorriso, que a mente me ilumina E aditara entre as chamas começava: — “Como bem vejo, dúvida domina A tua alma: — a vingança, que foi justa,

Punição teve, da justiça di’na? “Esclarecer-te o espírito não custa. Atende bem: verdade preminente Das vozes minhas co’a expressão se ajusta.

“Aceitar não querendo, obediente, Saudável freio, o homem, sem mãe nado, Perdeu-se a si, perdeu a humana gente. “Muitos séc’los enferma do pecado,

Jazeu ela não erro engrandecido Té que o Verbo de Deus fosse encarnado. “Por ato só do Eterno Amor, unido À natureza se há, que ao mal se dera,

Depois de esquiva ao Criador ter sido. “No que vou te dizer bem considera. A natureza, a que se uniu beni’no Em pessoa, nasceu boa e sincera.

“Por si mesma, fugindo em desatino Da vereda da vida e da verdade, Do Paraíso se exilou divino. “Da Cruz a pena, em face da maldade

Da natureza, a que Jesus baixara, Foi a mais justa em sua gravidade. “Nunca injustiça igual se praticara, Atenta essa Pessoa, que há sofrido,

Que à natureza humana se ajuntara. “Contrastes, pois, de um ato hão procedido: Folgam Judeus da morte a Deus jucunda, Foi ledo o céu e o mundo espavorido.

“E não te mova sensação profunda Ouvir que uma vingança, que foi justa, Vingada ser devia por segunda. “Vejo-te a mente por vereda angusta

Levada a estreito nó de dubiedade, Que solver mor esforço ora te custa. “Dirás: — discerne o que ouço, na verdade; Mas porque Deus nos desse está-me oculto,

Remindo-nos tal prova de bondade. — “Este decreto irmão, está sepulto Aos olhos do que ainda o entendimento Não tem de Amor na flama ainda adulto.

“É mistério em que luta o pensamento Sem fruto conseguir de tal porfia, Mas foi o melhor modo. Ouve-me atento! “A Divina Bondade que desvia

De si o desamor, arde e flameja, Por eternais primores se anuncia. “Diretamente o que emanado seja Dela é sem fim; eterna impressão fica

Do que no seu querer supremo esteja. “O que assim nasce, não sujeito fica Das causas secundárias à influência E liberdade plena significa.

“Mais lhe apraz, se é conforme à sua essência: Que o santo Amor que em toda cousa brilha, Mais vivo é no que encerra esta excelência. “Aos homens de tais bens cabe a partilha:

De tais predicados se um falece, Sua nobreza já decai, se humilha. “Só por pecado dessa altura desce; Do Sumo Bem não mais reflete o lume,

Semelhança não mais dele oferece. “E o grau sublime seu não mais assume, Se não contrapuser ao do pecado Deleite mau das penas o azedume.

“Quando o gênero humano, infeccionado Todo no germe seu, foi dessa alteza E do seu Paraíso deserdado, “Reaver só pudera (com certeza

Verás, se bem cogitas), intervindo Um dos meios, que aponto por clareza: “Ou Deus, por graça infinda, remitindo; Ou — porque, de si mesmo, se convença —

Das culpas suas o homem se remindo. “Para sondar a profundeza imensa Dos eternos conselhos, prende à mente As razões que o discurso meu dispensa.

“O homem não podia, de indigente, As dívidas solver: nunca pudera Curvar-se tanto, humilde e reverente, “Quanto, rebelde, se elevar quisera.

Eis por que redimir-se do pecado Só por si mesmo ao homem não coubera. “E, pois há sido do divino agrado, Por clemência ou justiça e ambas juntando,

Ser ele à vida eterna aparelhado. “A feitura do Autor ao gosto estando Inda mais, quando a imagem nos of’rece Do peito, de quem vem piedoso e brando,

“A Bondade que em tudo transparece, Em prol vosso os dois modos reunia: Um somente bastar-lhe não parece. “Entre a noite final e o primo dia

Ato igual não se fez alto e formoso Desse modo por um, nem se faria. “Dando-se, há sido Deus mais generoso, Por que o home’ a se erguer se habilitasse,

Do que só perdoando carinhoso. “Outro meio qualquer, que se empregasse Não bastara à Justiça, se humilhando De Deus o Filho à carne não baixasse.

“Para de todo seres doutrinado Eu torno a um ponto, por que vejas claro, Como eu, o que zelosa hei te explicado. “Dizes: — no fogo e no ar, se bem reparo

Na terra e nágua vejo e em seus compostos Corrupção que destrói sem anteparo. “Na criação por Deus foram dispostos: De corrupção isentos ser deveram,

Certos sendo os princípios por ti postos. — “Criados, meu irmão, se consideram Os anjos e dos céus o que há no espaço, Inteiros, puros sempre quais nasceram.

“Elementos e quanto no regaço Da natura por eles se combina De virtude criada of’recem traço. “Criou-lhes a matéria a lei divina,

Criando logo a força informativa, Que nos astros, que os cercam, predomina. “Dos lumes santos moto e luz deriva Dos brutos alma, e plantas igualmente,

Por compleição potencial passiva. “A vida nossa vem diretamente De Deus, Supremo Bem, que em nós acende Amor tal, que o deseja eternamente:

“Daí, por dedução, também descende Vossa ressurreição, se ao ser e à essência Da humana carne o teu esp’rito atende, Quando o primeiro par teve existência.” —

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