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1822–1882

CANTO VI

José Pedro Xavier Pinheiro

“Depois que Constatino a Águia voltara Contra o curso do céu, que ela seguira Pós o herói, que Lavínia conquistara, “Duzentos anos já passados vira

Da Europa em confins de Deus essa ave, Vizinha aos montes, donde se partira; “Das plumas sob a sombra ampla e suave, De mão em mão o mundo há dominado,

Té comigo reger do Império a nave. “César, Justiniano fui chamado. Do Amor, que sinto, por querer movido, O supérfluo das leis hei cerceado.

“Antes de ter a empresa cometido, Uma só natureza acreditava Ter Cristo e andava nessa fé perdido. “Mas de Agapeto santo que mandava

De Roma Santa Igreja, a voz potente Levou-me à crença pura, que eu deixava. “O que então disse, eu vejo claramente, Pois, como vês, contradição implica

Uma falsa asserção e outra evidente. “Quando eu cri no que a Igreja certifica, Minha mente, de Deus por alta graça, Logo à sublime empresa se dedica.

“Belisário a reger as armas passa; No favor, que lhe deu poder divino Sinal vi que me ordena a paz se faça. — “A responder-te, o que ouves tem destino;

Mais o que hei dito agora a tanto obriga, Que a mor explicação dar-te me inclino. “Verás que sem razão vontade imiga Move-se contra esse estardarte santo,

Quando o tenta usurpar, quando o profliga. “Pelos fatos verás respeito quanto Mereceu desde a honra em que Palante Morreu por dar-lhe de sob’rano o manto.

“Em Alba sabes como foi constante Por mais de anos trezentos té lutarem Três contra três por que ele fosse avante. “Sabes quanto ele fez por se curvarem

Vizinhos desde o roubo das Sabinas Té Lucrécia expirar e os Reis findarem. “Sabes que glória teve nas mãos di’nas De heróis, que Breno e Pirro combateram,

E de outros reis coligações mali’nas; “Décios, Fábios, Torquatos lhe deveram E Quíncio Cincinato, que amo e louvo A fama das vitórias, que tiveram;

“Calcou o orgulho do Africano povo, Que por fraguras, donde, o Pó, te envias, Sob Aníbal, abriu caminho novo. “Fez triunfar da juventude em dias

Cipião e Pompeu, e assaz desgosto Causou às tuas pátrias serranias. “Perto dos tempos, em que o céu disposto Havia, por seus fins, dar paz ao mundo.

Em mãos de César Roma o teve posto. “O que ele fez do Var ao Rin profundo Isara há visto e o Era, há o Sena E esse vale, onde o Rone é sem segundo.

“Passando o Rubicon, após Ravena, Com César a Águia tanto em vôo alçou-se, Que o não pôde seguir nem voz, nem pena. “Depois que para a Espanha remontou-se,

A Durazzo e a Farsália acometia: Do efeito o ardente Nilo perturbou-se. “O Simoente e Antandro então revia, Seu berço, em que a de Heitor cinza descansa;

E sem detença a Ptolomeu se envia. “Dali, qual raio, logo Juba alcança; Depois volve-se às terras do Ocidente, Onde os sons de Pompeu a tuba lança.

“Nas mãos de outro o que fez essa ave ingente No inferno Bruto e Cássio estão sentindo, Sofrem Perúgia e Módena tremente. “Cleópatra inda vai triste carpindo

Atroce morte, que da serpe toma, Da Águia os assaltos pávida fugindo. “Até o Roxo mar tudo a Águia toma, E ao mundo tão serena a paz se inclina,

Que em fim de Jano as portas fecha Roma. “O que fez e faria a ave divina Para trazer à fama sua aumento Nesse império mortal, em que domina,

“Parece escasso em seu merecimento, Quando em mãos de Tibério a contemplamos Com puro afeto e claro entendimento; “Pois que a viva justiça, que adoramos

Lhe há nessas mãos a glória concedido De dar vingança às iras, que incitamos. “Sê, me ouvindo, de espanto possuído: Águia a vingança do pecado antigo

Depois com Tito há por tornar corrido. “Quando, mordida por lombardo imigo, Gemia a Santa Igreja, à sombra da ave Salvou-a Carlos Magno do perigo.

“Podes julgar, portanto, do erro grave Daqueles, cujas faltas hei notado, Causa do mal que vês quanto se agrave. “Contra o sacro estandarte um tem hasteado

Áureo lírio, outro o quer por seu partido: Custa dizer qual seja o mais culpado. “Gibelinos, no iníquo andar sabido Outra bandeira sigam; que à justiça

Culto esta exige nunca interrompido. “Carlos novo a batê-la em vão cobiça Com Guelfos; tema as garras, que arrancaram A mais forte leão juba inteiriça.

“Mais de uma vez os filhos já choraram Pelas culpas do pai: é louca a esp’rança, — De que de Deus favor lírios ganharam. “O planeta, em que habito agora, estança

É de almas generosas que honra e fama Aspiraram do mundo na lembrança. “Quando os desejos deste modo inflama O incentivo da glória, aos céus ascende

Do vero amor menos ativa a chama. “Mas nossa dita em parte compreende Dos méritos e prêmio no confronto: Nem menor, nem maior nenhum se entende

“Pois da viva justiça o feito pronto Tanto os afetos nos ameiga e apura, Que nequícia os não torce em nenhum ponto. “Vozes várias de sons formam doçura:

Assim os vários graus na eterna vida Doce harmonia fazem nesta altura. “Nesta per’la, em que estás, bela e polida, Rebrilha de Romeu claro luzeiro,

Virtude ínclita e mal agradecida. “Os provençais, pelo ato traiçoeiro, Não se riram; caminho segue errado Quem o bem de outro inveja sobranceiro.

“Às filhas grato de rainha o estado Conseguiu Beranguer: tal bem devia A Romeu, nome humilde e não falado. “Preso na trama que a calúnia urdia,

Que aumentado no quinto o erário havia; Do erário contas exigiu do justo, “Romeu partiu-se então pobre e vetusto: Se o mundo o coração lhe aquilatara,

Quando, mendigo, se mantinha a custo, Louvor muito maior lhe dispensara.” —

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