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1822–1882

CANTO III

José Pedro Xavier Pinheiro

O sol por quem primeiro ardeu meu peito, Provando e refutando, me mostrara Da formosa verdade o doce aspeito. Por confessar-me do erro, em que vagara,

Quanto possível fosse, convencido, Mais alto a fronte para a sua alçara. Eis fui de uma visão tal possuído, Que olvidei meu desejo inteiramente,

Ficando em contemplá-la submergido. Bem como em cristal puro e transparente, Ou nágua clara, límpida e tranquila, Que deixa à vista o fundo seu patente,

A imagem nossa quase se aniquila, Em modo, que uma per’la em nívea fronte Se faz mais perceptível à pupila, Assim, dispostas a falar defronte

Várias figuras vi: eu no erro oposto De Narciso caí amando a fonte. Eu, cuidando as feições do seu composto Ver num espelho, súbito volvia,

Por bem saber quem fosse, atrás o rosto. Ninguém vi. Logo o gesto me atraía Da doce guia, que, a sorir-me estando, Dos santos olhos no esplendor ardia.

— “No sorriso, não pasmes, reparando, A causa é” — diz — “teu pueril engano, À verdade caminhas vacilando. “Andas em falso, como sóis, de plano:

Verdadeiras substâncias estás vendo; Trouxe-as aqui dos votos seus o dano. “Interroga, o que ouvires crer devendo; Pois da verdade a luz, que as esclarece,

As conduz, de todo erro as defendendo.” — Volto-me então à sombra, que parece Mais desejosa de falar: torvado Começo, e a voz impaciência empece.

— “Tu, espírito eleito, que, enlevado, Da vida eterna aqui fruis a doçura, Que entende só quem tem expr’imentado, “Grã mercê me farás, se porventura

Disseres o teu nome e a sorte vossa.” — A responder-me leda se apressura. — “Ao bom desejo a caridade nossa, Como a que manda a corte sua inteira

Imitá-la, defere quanto possa. “Eu era lá no mundo virgem freira: Diz-te a memória, se as feições me guarda, Que sou, posto mais bela, e verdadeira.

“Atenta bem: verás que sou Picarda: Estou nesta bendita companhia, Venturosa na esfera, que é mais tarda. “As nossas afeições que inflama e guia

Somente a inspiração do Esp’rito Santo, Enlevam-se em cumprir ordens que envia. “A sorte, ao parecer somenos tanto, Nos coube, por ter sido descurado

O sacro voto e em parte posto a um canto.” — Respondi-lhe: — “No aspeito sublimado Vosso rebrilha um não sei que divino, Que o tem do que foi de antes transmutado.

“Não fui, pois, em lembrar-me repentino; Porém, do que disseste me ajudando, Eu do que hás sido em recordar-me atino. “Mas vós que estais aqui dita logrando

Não sentis de outro céu desejo ardente Por ver mais alto mais amor gozando?” — Sorriu-se a sombra e as outras docemente; E disse da alegria radiante,

O seu primeiro amor como quem sente: “Rege o nosso querer, em paz constante, A caridade, irmão: só desejamos O que ora temos e não mais avante.

“Anelando ir mais alto do que estamos, Seríamos rebeldes à vontade, A que aprouve esta estância, que habitamos. “Pois nos cumpre existir na caridade,

Surgir não pode em nós tal pensamento, Dessa virtude oposto à santidade. “Condição de eternal contentamento É preceito cumprir do Onipotente:

Um só com ele é logo o nosso intento. “Do reino em cada plaga refulgente Somos, do reino todo muito ao grado E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.

“Seu preceito a paz nossa se há tomado: Ele é mar a que tudo precipita, Que cria, ou faz natura ao seu mandado.” — Conheço então que o Paraíso habita

Quem stá do céu em qualquer parte, e vejo Não chover de um só modo a suma dita. Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo, E de outro resta o apetite vivo,

Um se agradece, expondo-se o desejo. Por gesto e voz assim fiz-me expressivo Para a tela saber que a lançadeira Não rematara com lavor ativo.

— “Perfeita em vida, em mérito altaneira Acima santa está, que há regulado Vestes e véus, com que professa freira, “Até finar-se, vele ou durma ao lado

Desse esposo, que todo voto aceita, Se lhe é por caridade consagrado. “Menina e moça, à sua regra estreita Submeti-me, e do mundo me apartando

Jurei aos seus preceitos ser sujeita. “Roubou-me à paz do claustro iníquo bando, Mais à maldade do que ao bem afeito: Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!

“Este fúlgido esp’rito, em cujo aspeito (À direita demora-me) se acende Quanto lume o céu nosso tem perfeito, “O que digo de mim de si o entende;

Sendo freira, como eu foi-lhe arrancado O santo véu, que o voto à fronte prende. “Mas, ao mundo tornando de mau grado, Que os seus piedosos usos ofendia,

Guardou fiel seu peito ao sacro estado. “É a excelsa Constância a que radia: Deu de Suábia ao Imperador segundo Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.” —

Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo Cantou: cantando aos olhos desparece, Qual peso, que mergulha em mar profundo. Segui-la a vista quis quanto pudesse;

De desejo invencível atraída, Voltou-se, quando em todo se esvaece, E em Beatriz fitou-se embevecida. Mas era o rosto seu tão fulgurante,

Que ante o lume sentiu-se esmorecida. Pelo efeito atalhei-me titubante.

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