Enquanto aquela fuga repentina Pela planície as sombras impelia Ao monte, que a razão a amar ensina, Ao sócio meu fiel eu me cingia:
Como sem ele houvera prosseguido? Quem para alçar-me esforço me daria? De remorsos parece possuído. Ó consciência pura e sublimada,
Leve falta pesar te dá subido! Quando atalhava a pressa, que é vedada A quem dos atos no decoro atente, Eu, que sentira a mente angustiada,
Tornando ao meu intento afoutamente Os olhos à eminência levantava, Que para o céu mais alto eleva a frente. Nas espaldas o sol nos dardejava
Rubra luz, que o meu corpo interrompia, Pois aos seus raios óbice formava. Escuro ante mim só aparecia O solo: eu, de abandono receoso,
Voltei-me ao lado onde era o sábio Guia. Virgílio então me encara. — “Suspeitoso Te mostras?” — diz — “Cuidavas, porventura, Que eu não mais te acompanhe cuidadoso?
“Surge Vésper lá onde a sepultura Guarda o corpo em que sombra já fizera Tomando-o a Brindes, Nápole o assegura. “Se ante mim não a vês, não te devera
Dar pasmo como lá no firmamento Se a luz a luz não tolhe e não movera. “Para calma sentir, frio ou tormento Dispôs-nos corpo a suma Potestade.
Como o fez? Não nos deu conhecimento. “Fátuo é quem julga à humana faculdade Franco o infindo caminho e sempiterno, Por onde segue o Ente Uno em Trindade.
“Homem, vos baste o quia: se ao superno Saber alevantar-vos fosse dado, Da Virgem ao seio não baixara o Eterno. “Já viste porfiar sem resultado
Os que, cevar podendo seu desejo, Em perpétua aflição o têm tornado. “De Aristóteles falo neste ensejo, De Platão, de outros mais.” — Baixando a fronte,
Calou; mostrava torvação e pejo. Chegamos nós em tanto ao pé do monte Onde era a rocha de tal modo erguida, Que de subir capaz ninguém se conte.
A vereda mais erma e desabrida, Que de Léria a Túrbia se encaminha, Dá, confrontada, cômoda subida. E o Mestre, assim falando, os pés detinha:
“Quem sabe onde a este monte o passo ascende? Como aqui sem ter asas se caminha?” Enquanto, baixo o rosto, o Mestre entende Na jornada, em sua mente interrogando,
E pela altura a vista se me estende, Divisei turba a nós endireitando Da mão destra; o seu passo era tão lento, Que não me parecia estar andando.
— “Aos que vêm” — disse ao Mestre — “mira atento; Por eles pode ser conselho dado, Se o não te of’rece o próprio pensamento...” — Olhou-me, e com semblante asserenado
— “À turba vagarosa” — tornou — “vamos, E a esperança te esforce, ó filho amado!” — Passos mil para a grei nos caminhamos E de tiro de pedra inda à distância,
Por mão destra arrojada, nos chamamos Quando aqueles espíritos estância Junto aos penhascos vi fazer, cerrados, Qual transviado da incerteza em ânsia.
“Vós, eleitos ao bem, no bem finados” — Disse Virgílio — “pela paz ditosa, Em que sois todos, creio, esperançados, “Dizei-me onde a montanha alta e fragosa
Subir permite, um pouco se inclinando: Do tempo a perda ao sábio é desgostosa.” — Como as ovelhas o redil deixando A uma, duas, três e a cerviz tendo
Baixa as outras vão tímidas ficando; Todas como a primeira, se movendo, Conchegam-se-lhe ao dorso, se ela pára, O porque, simples, quietas não sabendo:
Assim a demandar-nos se apressara A venturosa grei, que no meneio Traz a moléstia e o pudor na cara. Tomada foi, porém, de tanto enleio,
Por minha sombra em vendo a luz cortada A destra, em direção da rocha ao seio, Que a vanguarda parou, como torvada: Pelos mais sem detença foi seguida,
Mas sem lhes star a causa revelada. — “A explicação previno apetecida: Que um vivo corpo vedes confesso E a luz do sol por este interrompida.
“Não haja em vós de maravilha excesso; Do céu pela virtude socorrido, Da montanha atingir quer o cabeço.” — Disse Virgílio. — E foi-lhe respondido:
— “Voltai-vos; caminhai de nós diante.” — E o lugar indicavam referido. — “Sem que um momento deixes ir avante, Quem quer que sejas, olha-me e declara”, —
Disse um deles, — “se hás visto o meu semblante.” — Volvi-me, olhos fitando em quem falara. Formoso e louro, tinha heróico aspeito; Um golpe o seu sobrolho separara.
Tornei-lhe — “não” — tomado de respeito. — “Olha!” — falou a sombra me indicando Larga ferida no alto do seu peito. “Vês Manfredo — sorriu-se me falando —
Que neto foi da Imperatriz Constança. A minha bela filha diz, voltando, (Mãe daqueles por quem tanta honra alcança Aragão com Sicília) o que hás sabido,
Qual a verdade seja lhe afiança. “Depois que foi o corpo meu ferido De golpes dois mortais, a Deus piedoso Alma entreguei, chorando arrependido.
“Fui de horrendos pecados criminoso, Mas a Bondade Infinda acolhe e abraça Quem perdão lhe suplica pesaroso. “Se o Bispo que enviou Clemente à caça
Do meu cadáver, respeitado houvesse Esse preceito da Divina Graça, “Do corpo meu os ossos me parece, Que em frente à ponte, ao pé de Benevento,
Em guarda o grave acervo inda tivesse. “Agora os banha a chuva e açouta o vento, Do reino meu distantes, junto ao Verde, Onde os lançou sem luz, sem saimento.
“Mas anátema tanto alma não perde Que, quando verde a esp’rança lhe floresce, Do eterno amor do Criador deserde. “Por certo, em contumácia o que fenece
Contra a Igreja, ainda quando se arrependa Na hora extrema sua, aqui padece “Tempo, que trinta vezes compreenda Da impenitência o espaço, se ao decreto
Preces não trazem benfazeja emenda. “Vês, pois, que podes me tornar quieto: Revelando à piedade de Constança Que interdito me hás visto ainda exceto
Pelas preces de lá muito se alcança.” —
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