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1822–1882

CANTO II

José Pedro Xavier Pinheiro

Fora-se o dia; e o ar, se enevoando, Aos animais, que vivem sobre a terra, As fadigas tolhia; eu só, velando, Me aparelhava a sustentar a guerra

Da jornada, assim como da piedade, Que vai pintar memória, que não erra. Ó Musas! Ó do gênio potestade! Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste

Quanto vi, mostra a egrégia qualidade. “Poeta”, — assim falei, — “que começaste A guiar-me, vê bem se em mim persiste Calor que, à empresa que me fias, baste.

“Que o pai do Sílvio fora, referiste, Corrutível ainda, até o inferno Sem perder o que em corpo humano existe. “Se do mal assim quis o imigo eterno,

Origem vendo nele do alto efeito, O que e o qual, segundo o que discerno, “Pela razão bem pode ser aceito; Que para Roma e o império se fundarem

Fora no céu por genitor eleito; “À qual e ao qual cabia aparelharem, Dizendo-se a verdade, o lugar santo Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.

“Nessa empresa, em que o hás louvado tanto, Cousas ouviu, de que surgiu motivo Ao seu triunfo e ao pontifício manto. “Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo:

Conforto ia buscar, à fé, que à estrada Da salvação princípio é decisivo. “Por que irei? Quem permite esta jornada? Eneas, Paulo sou? Essa ventura

Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada. “Receio, pois seja ato de loucura, Se eu me resigno a cometer a empresa. Supre, és sábio, o que digo em frase escura”.

Como quem ora quer, ora despreza, Sua alma a idéias novas tem disposta, Mostrando aos seus desígnios estranheza, Assim fiz eu na tenebrosa encosta,

Porque, pensando, abandonava o intento, Formado à pressa, que ora me desgosta. “Do teu dizer se atinjo o entendimento” — Do magnânimo a sombra me tornava, —

“Eivado estás de ignóbil sentimento, “Que do homem muita vez faz alma ignava, Das honrosas ações o desviando, Qual sombra, que o corcel ao medo trava.

“Desse temor livrar-te desejando, Por que vim te direi e quanto ouvido Hei logo ao ver-te mísero lutando. “No Limbo era suspenso: eis requerido

Por Dama fui tão bela, tão donosa, Que as ordens suas presto lhe hei pedido. “Brilhavam mais que a estrela radiosa Os seus olhos; suave assim dizia

De anjo com voz, falando-me piedosa: — “De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia No mundo gozas fama tão sonora, Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,

“Amigo meu, que a sorte desadora, Pela deserta falda indo, impedido De medo, atrás os passos volta agora. “Temo que esteja tanto já perdido,

Que tarde eu tenha vindo a socorrê-lo, Pelo que lá no céu dele hei sabido. “Parte, pois, e com teu discurso belo E quanto o salvar possa do perigo

Lhe acode; e me console o teu desvelo. “Sou Beatriz, que envia-te ao que digo, De lugar venho a que voltar desejo: Amor conduz-me e faz-me instar contigo.

“Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo Repetirei louvor, que hás merecido”. — “Tornei-lhe, quando já calar-se a vejo: — “Senhora da virtude, a quem tem sido

Dado só que proceda a espécie humana Quanto é no mundo sublunar contido, “Tanto praz-me a ordem que de ti dimana, Que, já cumprida, houvera inda demora:

Em me abrir teu querer não mais te afana. “Diz-me, porém, por que razão, Senhora, Baixar a este centro hás resolvido Do céu, a que ardes por voltar agora”.

— “Se queres tanto ser esclarecido Eu te direi” — tornou-me — “frase breve Por que sem medo às trevas hei descido. “Somente as cousas recear se deve

Que a outrem podem ser causa de dano Não das mais: a temor a causa é leve. “De Deus favor criou-me soberano Tal, que a vossa miséria não me empece

Nem deste incêndio assalta o fogo insano. “Nobre Dama há no céu, que compadece O mal, a que te envio; e tanto implora, Que lá decreto austero se enternece.

— “Volvendo-se a Luzia, assim a exora: “O teu servo fiel tanto periga, Que ao teu amparo o recomendo agora”. — “Luzia, sempre do que é mau imiga

Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada Ao lado estava de Raquel antiga. “De Deus vero louvor!” — diz-me apressada — “Por que não socorrer quem te amou tanto,

Que só por ti deixou do vulgo a estrada? “Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto? Não vês que junto ao rio é combatido, Que ao mar não corre, por mortal espanto?” —

“Os danos, tão veloz, não tem fugido Ninguém, nem procurado o que deseja, Como eu, em tendo vozes tais ouvido; “O trono meu deixei, por que te veja,

Fiada em teus discursos eloquentes, Honra tua e de quem te ouvindo esteja”. — “Assim falava e os olhos seus fulgentes Com lágrimas a mim ela volvia,

Para apressar-me a vir assaz potentes. “A ti vim, pois, como ela requeria; Da fera te livrei, que da colina Tão perto já, teus passos impedia.

“Que fazes, pois? Por que, por que domina Tanta fraqueza o peito espavorido? Por que ao valor tua alma não se inclina, “Quando és pelas três santas protegido,

Que na corte do céu por ti se esmeram, E gozar tanto bem lhe é prometido?” — Quais flores, que, fechadas, se abateram Da noite ao frio, e, quando o sol aquece,

Erguem-se abertas na hástea, tais como eram, Tal meu valor renova e fortalece. Tanto ardimento o coração me aviva, Que exclamei, como quem jamais temesse:

“Ó Dama em socorrer-me compassiva! E tu, que a voz lhe ouvindo, obedeceste, Cortês ao rogo e com vontade ativa, “Por teu dizer no peito me acendeste

Desejo tal de vir, que sou tornado Ao propósito, a que antes me trouxeste. “Vai, pois nosso querer ’stá combinado. Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!”

Disse-lhe assim. Moveu-se ele; ao seu lado Pelo caminho entrei alto e silvestre.

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