É homem de cidade
Aquele que ali vês, limpando o fato;
Posto que não lhe agrade,
O verniz enlameia do sapato,
É que ele não se ajeita
Às perneiras de mal curtido couro,
E indócil não aceita
Costumes que lhe trazem o desdouro.
Mil grandezas da corte
Exalta e eleva aos dous cornos da lua,
E não duvida pôr-te
De rastos da amargura pela rua.
Atira-nos à face
As faltas que descobre em nossa casa,
Nada vê que o não mace,
E, língua viperina, tudo arrasa.
Candura e singeleza
Que ao bom provinciano aumenta o brilho
Desdenha e menospreza
O que só tem de corte o ser casquilho.
Põe-se do espelho em frente,
De puro macáçar unta as guedelhas
E alisa docemente
Espessas e arqueadas sobrancelhas.
Porém que vale o asseio,
Tanto esmero na untura do cabelo,
Se o petit-maitre é meio,
Quero dizer, pedaço de camelo?
Dos ditos que profere
Não se tira um bom mote que se glose,
Daí ninguém espere
De máxima ou sentença a menor dose.
Portanto está no caso
De tomar-se um audaz cabo de esquadra,
Que estulto deixe raso
Aquilo que entre nós lhe bem não quadra.
Engrossem-se as fileiras
Dos esquadrões valentes da estultícia,
Tremulem as bandeiras
De sua universal forte milícia.