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1820–1905

VII

José Joaquim Correia de Almeida

Agora, leitor paciente, Uma ascensão vou propor-te Ao lugar mais eminente, Qual deve ser uma corte.

Com protesto não me saia, Pois não fora boa cena, A favor do Itatiaia O estudioso Massena.

Não sou homem da ciência, Como ele o é com certeza; É para nós a eminência De diversa natureza.

O que ele diz é verdade, Não é mentira o que digo, Resultando que sempre há de Estar de acordo comigo.

Sobre etiquetas e estilo, Não quero ser pró nem contra; Apanho sem discuti-lo O argumento que se encontra.

O hábito não jaz o monge, É anexim que bem soa, E o nome às vezes ’stá longe Dos costumes da pessoa.

Parece que o absurdo adrede Abre na corte buracos, Pois aí jazem parede Os poltrões inertes fracos.

Para a nossa agricultura Fora coisa bem achada, Se o bom povo que os atura Lhes entrega fouce e enxada.

Ora vão plantar mandiocas, Improdutivos lacaios, E no milho de pipocas Também façam seus ensaios!

Choro, mas choro debalde, Por tempos de Cincinatos, E, sem crer em Garibaldi, Eu volto aos meus caricatos.

Acordo em nomenclatura No palácio quem espere-o, Se anões de alma e de estatura Querem ser Grandes do Império?!

Um tal velho octogenário, Vestido todo de lhama, Comediante em cenário, Moço fidalgo se chama.

Um que destrói qualquer traste, E é traça que nada poupa, Por antítese ou contraste, Alcunha-se Guarda-roupa.

Um feio, que não admira Se por mono outros o tomem, Dos bons cuidados se tira, E se inculca Gentil-homem.

Amigo leitor, voltemos Dos salões áureos da corte, Mas agora um dever temos, Ao qual deixarás de opor-te.

Faze como o caranguejo, Que usa e sabe andar de costas; Do costume, que praguejo, Também decerto não gostas.

Porém, como quer que seja, Meu leitor, tem paciência; Na corte não se graceja, Caranguejar é ciência.

Qual lavarinto suporta O aguilhão para que faste, Vem recuando até a porta, E não saias como entraste.

Pé atrás sem ver o espaço Não será triste figura! Quem nos ensina esse passo É o mestre toma-largura.

Questiúnculas não movo, Ao jugo pois nos curvemos; Os escolhidos do povo O fazem, como aí vemos!

Nós misérrimos pedestres Não sejamos singulares; Temos o exemplo dos mestres, Pelos quais eu bebo os ares.

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