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1820–1905

TIPO ACADÊMICO

José Joaquim Correia de Almeida

Nhonhô Chiquinho está no curso, e entre os colegas já faz discurso.

É nos debates da academia ilustre lustre, que os alumia.

É literato tão erudito, que a História abrange em um só dito.

Sobe ao Parnaso da Pauliceia, corrige a Eneida, mais a Odisseia.

Vate inspirado, republicano, só quer assunto americano.

Diz-nos que temos para poemas nossas Lindoias, nossas Moemas.

Por sermos bugres, julga desdouro falarmos língua do Tejo e Douro.

E esta sentença assim tão lisa as belas letras nacionaliza.

Traz novidades, que só não cola ramerraneiro da antiga escola.

Mete em debuxos os algarismos, e num chichelo os aforismos.

Um engenheiro, um alopata, na crassidade ele os empata.

Diz que às demandas dá descaminho um advogado sem pergaminho.

Supõe ser crime, ou desaforo, que os tais Rebouças voguem no foro.

Em vão procura no sacerdote causa que preste, e que se adote.

Em tudo enxerga jesuitismo, e só é crente no espiritismo.

Sem ler nos livros trata de tudo, pois de nascença já trouxe o estudo.

Nem da verdade aqui me aparto, se sábio o creio antes do parto.

De oitenta idiomas bem complicados sabe os diversos significados.

Mas é tão firme no galicismo, que, se este falha, ainda eu cismo.

Que jovem útil, e de esperanças, se dos parentes lhe vêm heranças!

Embora fosse asno ou burrico, cessava a asneira em sendo rico.

Louvo a fortuna, que lhe tem dado um pai visconde sem viscondado.

Com tanto esmero o educara, que o Chico briga, e expõe a cara.

Sofre no lombo dor de peroba, e com azougue toma caroba.

Por passatempo pespega um couce, e quem se queixa equivocou-se.

Razão não teve seu primo Juca, que vai doente para a Tijuca.

Seus atributos não amesquinho, que os tem de arromba Nhonhô Chiquinho.

Se querem provas, guardo-as comigo; é o rapazete da Pátria amigo.

Daqui a pouco é candidato, e isto, que afirmo, assino e dato.

o Brasil medra, se um só momento entra o fedelho no parlamento

Que prazer, vê-lo deputadinho, ou discorrendo, ou caladinho!

Um nosso digno representante eu prognostico desde este instante.

Uma lei velha tem consignado que velhos entrem para o senado.

De ampla reforma eu me avizinho, e quero o Chico senadorzinho.

Pater Conscriptus, como rebuço, tenha no beiço ponta de buço.

Se el-Rei o apanha por conselheiro, acha uma agulha neste palheiro.

Se chega um dia a ser ministro, no mar e em terra não há sinistro.

A agricultura toda se irriga, enchem-se os bolsos, mais a barriga.

O Brasil fértil brota e floresce, e o bicho ou larva desaparece.

Se nos governa este Messias, oh que fartura de melancias!

Mal o Chiquinho seja Francisco, nossas algemas reduz a cisco.

E então o Estado por lisonjeiro fará inveja ao estrangeiro.

E sem que o povo trabalhe e canse, será o tesouro livre do alcance.

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