O poeta mordaz que satiriza,
Ao vizinho imputando o vício rude,
Talvez seja falido de virtude,
E não tenha a verdade por divisa.
A sátira severa não precisa
De expor os indivíduos, só alude;
É transgredida a lei tão amiúde,
Que a censura indireta sempre frisa.
Nas sacrossantas letras da Escritura,
Brilha porque é singela e sem refolho,
Sub lime parabólica figura.
O hipócrita, conforme daí colho,
Não vê a trave em si, antes procura
Achar o argueiro dentro de teu olho.