José Joaquim Correia de Almeida
Muita cousa neste mundo Nos consome e assassina, E mesmo sem ser paixão, Quando não mata, amofina.
O músico instrumentista, Ou cantor que desafina, Aos atentos dilettanti, Quando não mata, amofina.
Pregador nédio e roliço Que nos impinge doutrina, Pregando sermões furtados, Quando não mata, amofina.
Rapariga presumida De ter boca pequenina, Rósea face, ebúrneos dentes, Quando não mata, amofina.
Senhor que aos escravos dá O sustento por tamina, A tais pobres esfaimados, Quando não mata, amofina.
Petit-maître que no peito Traz não-me-deixe, ou bonina, Enjoa mais que poaia; Quando não mata, amofina.
Moça matuta ou da roça, Que uma perna tem mais fina, Por buracos espreitando, Quando não mata, amofina.
Poeta que só decanta Sua formosa Marcina Em lânguido verso erótico, Quando não mata, amofina.
Sequista que mói o ouvido Como se fosse buzina, Narrando oitenta episódios, Quando não mata, amofina.
Beberrão que de um só fôlego Se uma pipa não empina, Sorve suas dez garrafas, Quando não mata, amofina.
Mulher que fala tremendo Em mochos, lunário, e sina, E nos dias aziagos, Quando não mata, amofina.
Usurário que dos cobres Padece fome canina, Em fisgando o devedor, Quando não mata, amofina.
Perdigueiro estonteado, Sem ensino ou disciplina, Lançando fora as perdizes, Quando não mata, amofina.
Aluno que não compreende A lição que o mestre ensina, Faz perder a paciência, Quando não mata, amofina.
Escolástico pedante, Que pelas ruas declina Hora, horae, servus, servi, Quando não mata, amofina.
Se é já de filosofia, E nos diz que discrimina Em tudo causas e efeitos, Quando não mata, amofina.
Cavalo magro e chotão, Passarinheiro, ou que empina, Além de abalar as tripas, Quando não mata, amofina.
Vergonhosa e rabugenta Contenda de medicina, De alopatas e homeopatas, Quando não mata, amofina.
De perdidos dissolutos Assembleia libertina, Discutindo sobre Dogmas, Quando não mata, amofina.
Mulher de seus quarenta anos Que quer passar por menina, Por menina e por mimosa, Quando não mata, amofina.
Publicista que despreza Frase pura e genuína, E emprega termos xacocos, Quando não mata, amofina.
Viajante que nos conta Lá da Itália ou Palestina Prodígios que ninguém viu, Quando não mata, amofina.
Senhora vinda dê baixo, De educação superfina, Desdenhando o que é dê cá, Quando não mata, amofina.
Parlamentar que parece Ter na garganta surdina, Discutindo pra si só, Quando não mata, amofina.
E aquele que não sabendo Com quem seu nariz confina Trata questões de limites, Quando não mata, amofina.
Nobis quoque peccatoribus Serve a sátira, e termina A maçada, que enfadonha, Quando não mata, amofina.
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