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1820–1905

REFUTAÇÃO

José Joaquim Correia de Almeida

Li, meu caro redator, Os versos do bom Correia; Rendo encômios ao primor, Ao estilo, ao estro, à veia

Do sábio vate Mineiro, Qu’é do Parnaso um luzeiro. Porém como não combino Com sua argumentação,

E mui diferente opino Em o exame da questão, Com vênia vista requeiro Para embargos de terceiro.

Diz-nos sua reverência Que a propensão do sujeito É cousa de permanência, E querer dar-lhe outro jeito

Seria uma asneira forte, Por ser da natura ou sorte. É verdade que a natura Influi muito em qualquer cujo

Assim como que a finura Em o olfato do sabujo Quase sempre vem da raça Destinada a certa caça.

Mas o tempo tem mudado E com ele a condição Que também tem-se amoldado Às regras da educação,

Da ciência e do direito, Ante as quais tudo é sujeito. As mesmas cousas sem vida Não têm regra em serventia;

A modernice na lida Do progresso cada dia Muda a forma, a aplicação; Dá novo jeito e feição.

O bruto mais indomável Que nas brenhas se escondia, Vem na cidade habitável Dar mostras de cortesia,

Faz a paz, torna-se amigo Do natural inimigo. Mecenas, honra do Lácio, Que a natureza estudava

Com o velho poeta Horácio, Se hoje vivesse, ficava De queixo à banda caído Vendo tudo confundido.

O mesmo mestre que as leis Doutrora tanto estudou, E que mereceu de reis As honras de que gozou,

Poderia hoje aprender Impossíveis de se crer. A água que apaga o fogo, Quando Horácio pensaria

Que dela fazendo jogo A ciência poderia Tirar o mesmo elemento Que ela apaga num momento?

Mecenas ousou pensar Que fino arame pudesse Os mares atravessar, E num momento trouxesse

Respostas do que levou Às nações onde tocou? Decerto, amigo, que não; Visto como essa não era

Do arame a aplicação, Mas a ciência que impera Moveu a eletricidade, Deu-lhe nova utilidade.

O ferro que antigamente Só para enxadas servia; Hoje em máquina fervente Percorre terrestre via,

Sulca os mares com ardor Impelido do vapor. A água que na montanha Tudo o que topa despenha,

Com jeito e com artimanha Faz que um carro se mantenha, E o guinda bem carregado Por sobre um plano inclinado.

A mina que arrebentava, Pondo-se fogo ao murrão, E que desastres causava Na rapidez da explosão,

Dá mil tiros num momento Com elétrico instrumento. E se as cousas facilmente São sujeitas à mudança,

E se as domam docemente Estudo e perseverança, Muito mais a criatura Obra-prima da natura.

O animal feroz bravio, O tigre, a hiena, o leão, Já cede ao mando macio Da pequenina alva mão

De Labarrère afumada, Heroína denodada. O gato por condição É inimigo do rato;

Mas eu já vi em prisão Comerem no mesmo prato, Brincarem ambos juntinhas Um do outro bem amiguinhos.

Tenho visto perdigueiros De raça muito apurada Ficarem bons veadeiros, E gozos sem valer nada

Caçarem a codorniz, E levantarem perdiz. Cavalos que desprezados Foram de sela e cangalha

Tenho visto ajaezados, Dançar, comer a migalha Que na boca lhes of’recem Volantins a que obedecem.

E se os brutos facilmente Mudam sua condição, Se amoldam-se docemente À força da educação,

Muito mais a criatura Obra-prima da natura. O corpo humano se dobra Lá desse homem de borracha

Que enrosca-se como cobra, Que todo se des’tarraxa, Que salta como serpente, E que encanta a toda gente.

Mas será da natureza Vergarem ossos humanos Que são por lei-de dureza? Oh que não. Só os arcanos

Da ciência e da vontade Produzem tal raridade. Deixa o homem sua vida, Sua antiga profissão,

Troca o sossego por lida, A lida pela oração; Troca virtudes por vício, O ócio por seu ofício.

O general afumado Que cingiu valente espada, E que salvou denodado Sua pátria ameaçada,

Deixa a glória, o valimento, E se encerra num convento. O santo padre romano, Segundo diz a versão,

Foi soldado veterano Do grande Napo leão; Trocou morrião, espada, Pela tiara sagrada.

Do regimento mineiro Um bispo também saiu, Que ao pé do altar brasileiro Dourada mitra cingiu.

Também alguns magistrados De lá não foram tirados? Matheu, carrasco d’Espanha, Converteu-se em ermitão;

Vidocq, que na montanha Roubou o nobre, o vilão, Foi depois polícia fino, E foi terror do assassino.

Partidistas declarados Têm virado a casaquinha; Saquaremas exaltados, Amantes da Luziinha,

Todos dobrado se têm À posição que convém. E até na quadra presente Reuniu-se o cão ao gato,

Abraçou-se toda a gente Sem maior espalhafato, E o chimanguinho e o cascudo Estão concordes em tudo.

Conheço mesmo tropeiros Que amavam bestas, bornais, Feitos hoje fazendeiros, Arrotando capitais,

Requerendo baronatos, Excelências e mais tratos. Muitos paus de laranjeira Esquecem a condição,

E fidalguia à ligeira Blasonam com presunção, Querendo dar outro jeito Ao que os pais haviam feito.

Como pois, meu bom Correia, Nos diz sua reverência, Que a cousa que nasceu feia Nunca muda sua essência,

Se vemos tudo mudado, Todo o mundo baralhado? Esse mesmo demandista Que não sai dos auditórios,

Que regala o tabaquista, Derramando palanfrórios, Se encontra acomodação A agarra logo coa mão.

Pois a justiça hoje em dia Já não tem olhos vendados Para ver o que não via, (C’est-à-dire, os afilhados

Que no tempo de eleição Trocam votos por questão.) O caçador da montanha, Que conta com alegria

A assinalada façanha Que operou durante o dia, Até imitando o fogo Com que o bicho caiu logo;

Se lhe dão um empreguinho Em boa repartição, Deixa o coelho, o passarinho, Encosta arma, vende o cão,

Pega na pena arrogante, Ainda sendo ignorante. O tocador de viola, Que canta lundu chistoso,

Um dia lhe dá na bola Que deve ser mais ditoso, E requer ser professor, Escrivão ou contador.

Esse amansador de burros Que de perna toda tesa Sustém corcovos e urros Da besta que com fereza

O quer no chão apinchar, Mas qu’ele sabe domar; Não se contenta com isso, E no dia imediato

Julgando que faz serviço Ao povo pouco sensato, Improvisa-se advogado Ou charlatão consumado.

Os rapazes que deviam Por seu gênio turbulento Sentar praça onde podiam Ser valentes a contento,

Padrecos se vão formar Para o clero deslustrar. E outros que oficiais Seriam mais proveitosos,

Estudam porque seus pais, Que são homens dinheirosos, Querem ter seu doutorzinho, Embora saia um burrinho.

Portanto, meu caro amigo, Não o posso acompanhar, Pois tudo quanto lhe digo Parece contrariar

Sua sábia opinião Que acato em contradição. Eu também que tenho a balda De meu versinho escrever,

Quando a cabeça se escalda E me faz noites perder, Conquanto seja meu fraco As sátiras com que ataco;

Assim mesmo vezes mil Canto amores, tanjo a lira Ao luar de um céu de anil, Que doces canções me inspira

No devaneio em que a mente Se arrebata toda ardente. Mas não penseis que pretendo Com esta refutação,

Que à toa vou escrevendo, Negar-vos veneração; O meu fito é só brincar, É somente versejar.

Nenhum cálculo financeiro A minha Musa procura, Nem pretendo ir ao livreiro Dar sintomas de loucura,

Trocando o rude trabalho Por palhas e cascas d’alho. Não quero nome de vate, Alta glória não pretendo,

Assim só peço em remate Ao Correia Reverendo Que me conceda o perdão Por vir meter-me a tralhão.

“Neste resumido esboço Formado de linhas toscas, A verdade mostrar posso Sem parafusos nem roscas,

E por conclusão repito O que a princípio foi dito: É verdade que a natura Influi muito em qualquer cujo,

Assim como que a finura Em o olfato do sabujo Quase sempre vem da raça Destinada a certa caça.”

Mas o tempo tem mudado E com ele a condição Que também tem-se amoldado Às regras da educação,

Da ciência e do direito Ante as quais tudo é sujeito.

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