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1820–1905

PARÁBOLA, O ABACATE

José Joaquim Correia de Almeida

Diante de nossas frutas Parece que não se abate, Nem às lutas Ou combate,

Foge o afamado abacate. Como prova do bom gosto, Na lauta mesa dos nobres Ele é posto,

E o descobres Refeição parca dos pobres. Noto, porém, que se come Ou com limão ou com vinho,

E que o tome O vizinho Adoçado um poucachinho. A preta jaboticaba

Exclui os ingredientes, Nem acabe Entre os dentes O belo sabor que sentes.

A gabiroba do prado Tem requintes de doçura, E é escusado, Nem se atura

Açúcar nem rapadura. Se o ananás tem coroa, Decerto bem o merece; Cousa boa

Me parece, Pois de adubos não carece. No meio desses magnates, Por entre os parlamentares,

Grande porção de abacates É mui fácil de encontrares. Mérito próprio é bem raro, Luz refletida é emprestada,

E o país paga bem caro Muita lição orelhada. E nos trabalhos de peso, Nos importantes debates,

Empertigado e bem teso Brilha algum dos abacates? Tudo neles é postiço, Por si não presta a pessoa;

Entretanto e apesar disso Seu renome se apregoa! Aquele por ser parente, Estoutro por ser visconde,

Têm o valor aparente, Que o real ’stá não sei onde!

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