José Joaquim Correia de Almeida
De brutos de espécies várias O Brasil é muito farto, E entre a corja de alimárias Vê-se o auriverde lagarto.
Denota o verde-amarelo A Brasília autonomia, E o réptil (que paralelo!) Nas cores se lhe associa.
Aí porém não ’stá o alvo A que dirijo meu tiro, O estandarte são e salvo Fique embora, que o não firo.
Para o combate ou descanso, Para agressão ou defesa, Ao bruto feroz ou manso Deu armas a natureza.
Ao touro coube por sorte O chifre de aguda ponta, Ferra o dente o lobo forte Sem peso medida ou conta.
Do rijo casco da pata O burro também armou-se, Muitíssimas vezes mata Ingrato asinino couce.
Mas o herói deste poema Quem há i que não aplauda? O lagarto há quem não tema, Tendo ele por arma a cauda?
Haja vista ajararaca, E diga o que val seu bote, Quando este inimigo a ataca, E faz da cauda chicote.
Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens fartos. Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas, De cauda vos faz as vezes.
Eu não me refiro àqueles Bons servidores do Estado, Atenções merecem eles, Seu proceder é ilibado.
No Brasil não se conhece, Inda não há felizmente Fidalguia que viesse De raiz ou de semente.
Cada um dos titulares Enxertos tem aceitado, Com ser honesto nos lares, E ao país ser devotado.
Portanto aos nossos patrícios Repito que não aludo, Não lhes vejo certos vícios, De nascença sobretudo.
Uma ou outra exceçãozinha Eu não digo que não haja, Porque a peste se avizinha, Porque o cólera viaja.
Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens fartos, Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas, De cauda vos faz as vezes.
Albergando em vossos peitos Fatuidade e vão orgulho, Vós vos olhais com despeitos E com recíproco engulho.
Para serdes altaneiros, São mesquinhos vossos fatos; Os lagartos são rasteiros, Lagartos são sempre chatos.
Vos arrogais privilégios, Que a natura vos não dera; Nisso fazeis sacrilégios, Que a sapiência pondera.
Se da mulher o nascido, Conforme doutrinas sérias, Em todo o tempo tem sido Um conjunto de misérias;
Se temos igual fraqueza, E as mesmas necessidades, Não sois de outra natureza, Ó lodosas divindades!
Nem também por vós trazerdes Jaezes de alto quilate, Vossas artérias são verdes E a dentadura escarlate.
Em suma, porque me alongo, E de razões ando à cata? O lagarto rabilongo Deixa de ser quadrupata?
Por terdes, fidalgos podres, Tão bonitos ornamentos, Deixais de ser sujos odres Que trasbordam excrementos?
Dos brasões a vã ciência Por mais que o fidalgo estude, É nula proficiência, Quando lhe falta a virtude.
Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens fartos, Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas De cauda vos faz as vezes.
Em mil páginas da história, Apesar de vossas fitas, Horrenda é vossa memória, Meus ilustres parasitas.
Nesses postos eminentes, Que ocupais lá nessas grimpas, Não sois figuras decentes, Não estais de caras limpas.
A escada por que subistes A posições tão sublimes Tem por degraus casos tristes De infâmia baixeza e crimes.
Pelos recursos da insídia As bolsas enchestes de ouro, Pois vossa torpe auricídia Não se teme do desdouro.
Dos próprios irmãos a herança Que nome tem quem usurpa? Desses morgados a usança Direito é que vos deturpa.
Múltiplo exerceis o emprego, E tendes prebenda gorda; É tenaz o vosso apego, Por não perderdes a açorda.
A vergonha em almoeda A cada passo vós pondes, Falsificastes moeda, E por isso sois vis-condes.
Vossas armas defensivas Assaz vos tornam valentes, Deixais ver rubras gengivas, Arreganhando alvos dentes.
Alguns de vós têm o casco De orelhudo e vil jumento, Alguns de vós, causando asco, Ferem com pontas de armento.
Se estas armas entretanto Vos são do melhor efeito, Vossa cauda, que decanto, Mais vos garante o direito.
Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens furtos, Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.
Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas, De cauda vos faz as vezes.
Este é o ponto de essência Sobre que versa a epopeia, Dos rabos por excelência Darei a mais ampla ideia.
Tais assuntos... porém basta? Quem o quiser, aprofunde-os; Se bem que a matéria é vasta, Silentium verbis jacundius.
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