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1820–1905

PARÁBOLA, LAGARTEIDA

José Joaquim Correia de Almeida

De brutos de espécies várias O Brasil é muito farto, E entre a corja de alimárias Vê-se o auriverde lagarto.

Denota o verde-amarelo A Brasília autonomia, E o réptil (que paralelo!) Nas cores se lhe associa.

Aí porém não ’stá o alvo A que dirijo meu tiro, O estandarte são e salvo Fique embora, que o não firo.

Para o combate ou descanso, Para agressão ou defesa, Ao bruto feroz ou manso Deu armas a natureza.

Ao touro coube por sorte O chifre de aguda ponta, Ferra o dente o lobo forte Sem peso medida ou conta.

Do rijo casco da pata O burro também armou-se, Muitíssimas vezes mata Ingrato asinino couce.

Mas o herói deste poema Quem há i que não aplauda? O lagarto há quem não tema, Tendo ele por arma a cauda?

Haja vista ajararaca, E diga o que val seu bote, Quando este inimigo a ataca, E faz da cauda chicote.

Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens fartos. Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.

Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas, De cauda vos faz as vezes.

Eu não me refiro àqueles Bons servidores do Estado, Atenções merecem eles, Seu proceder é ilibado.

No Brasil não se conhece, Inda não há felizmente Fidalguia que viesse De raiz ou de semente.

Cada um dos titulares Enxertos tem aceitado, Com ser honesto nos lares, E ao país ser devotado.

Portanto aos nossos patrícios Repito que não aludo, Não lhes vejo certos vícios, De nascença sobretudo.

Uma ou outra exceçãozinha Eu não digo que não haja, Porque a peste se avizinha, Porque o cólera viaja.

Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens fartos, Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.

Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas, De cauda vos faz as vezes.

Albergando em vossos peitos Fatuidade e vão orgulho, Vós vos olhais com despeitos E com recíproco engulho.

Para serdes altaneiros, São mesquinhos vossos fatos; Os lagartos são rasteiros, Lagartos são sempre chatos.

Vos arrogais privilégios, Que a natura vos não dera; Nisso fazeis sacrilégios, Que a sapiência pondera.

Se da mulher o nascido, Conforme doutrinas sérias, Em todo o tempo tem sido Um conjunto de misérias;

Se temos igual fraqueza, E as mesmas necessidades, Não sois de outra natureza, Ó lodosas divindades!

Nem também por vós trazerdes Jaezes de alto quilate, Vossas artérias são verdes E a dentadura escarlate.

Em suma, porque me alongo, E de razões ando à cata? O lagarto rabilongo Deixa de ser quadrupata?

Por terdes, fidalgos podres, Tão bonitos ornamentos, Deixais de ser sujos odres Que trasbordam excrementos?

Dos brasões a vã ciência Por mais que o fidalgo estude, É nula proficiência, Quando lhe falta a virtude.

Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens fartos, Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.

Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas De cauda vos faz as vezes.

Em mil páginas da história, Apesar de vossas fitas, Horrenda é vossa memória, Meus ilustres parasitas.

Nesses postos eminentes, Que ocupais lá nessas grimpas, Não sois figuras decentes, Não estais de caras limpas.

A escada por que subistes A posições tão sublimes Tem por degraus casos tristes De infâmia baixeza e crimes.

Pelos recursos da insídia As bolsas enchestes de ouro, Pois vossa torpe auricídia Não se teme do desdouro.

Dos próprios irmãos a herança Que nome tem quem usurpa? Desses morgados a usança Direito é que vos deturpa.

Múltiplo exerceis o emprego, E tendes prebenda gorda; É tenaz o vosso apego, Por não perderdes a açorda.

A vergonha em almoeda A cada passo vós pondes, Falsificastes moeda, E por isso sois vis-condes.

Vossas armas defensivas Assaz vos tornam valentes, Deixais ver rubras gengivas, Arreganhando alvos dentes.

Alguns de vós têm o casco De orelhudo e vil jumento, Alguns de vós, causando asco, Ferem com pontas de armento.

Se estas armas entretanto Vos são do melhor efeito, Vossa cauda, que decanto, Mais vos garante o direito.

Ó do mundo aristocratas, De pergaminho homens furtos, Em vez de pés tendes patas, E, além do mais, sois lagartos.

Uma fiada de alcunhas De barões, duques, marqueses, Com comendas e outras cunhas, De cauda vos faz as vezes.

Este é o ponto de essência Sobre que versa a epopeia, Dos rabos por excelência Darei a mais ampla ideia.

Tais assuntos... porém basta? Quem o quiser, aprofunde-os; Se bem que a matéria é vasta, Silentium verbis jacundius.

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