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1820–1905

PARÁBOLA, A QUEIMADA E OS GAVIÕES

José Joaquim Correia de Almeida

Para engordar bem o gado, No mês de Julho ou de Agosto O árido campo é queimado Pelo fogo que lhe é posto.

O réptil que anda de rastos, O inseto de tênues asas, Entre o capim desses pastos Tu, ó fogo, intenso abrasas.

De negra cinza cobertos Filhotes de passarinhos; Por serem menos espertos Jazem dentro de seus ninhos.

Ainda bem a fumaça Não se dissipa nos ares, Já de gaviões esvoaça Um bom número de pares.

E tal espécie de abutre, Voraz ave de rapina, De cadáveres se nutre Ou por mau instinto ou sina.

É, pois, o incêndio flagelo Dos fracos animalejos, Porém traz recreio belo Para os gaviões malfazejos.

Em um sucesso como este Que boa moral se apanha! Nos incêndios e na peste Entre nós também se ganha!

O boticário aproveita A monção, e impinge a droga; E do médico a receita Quanto mais cara, mais voga.

O bom padre neste ensejo As finanças equilibra, Aceita, cheio de pejo, ’Spórtula e vela de libra.

São de instintos diferentes Os três gaviões aqui juntos; Aqueles querem doentes, O último só quer defuntos.

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