Liso inventor anuncia
em repetidos cartazes
um segredo que traria
resultados eficazes.
Pela sincera linguagem
tu bem convencido julgas
que são de imensa vantagem
os tais pós de matar pulgas.
Há chusmas de compradores,
pois é o segredo armadilha
que apanha grossos valores,
qual nova salsaparrilha.
O chale, a saia, a camisa,
a colcha, o lençol, a esteira,
em suma, tudo precisa
da mortífera poeira.
Nenhum trabalho se poupa,
e o mundo inteiro se ocupa
em ver se extingue na roupa
a importuna sangue-chupa.
Mas o bichinho teimoso
vai mordendo e continua
na antiga posse, e no gozo
da pele vestida ou nua.
E por mais que Ana Delfina
o pescoço e os braço s cubra,
deixa ver na cútis fina
muita e muita pinta rubra.
Se presumível já fora
que sempre estaria em voga,
a invenção destruidora
parece que deu em droga!
Comprador mais exigente
ao droguista participa
que, apesar dos pós, a gente
das pulgas não se emancipa.
Então este mais que prestes
as circunstâncias indaga:
— de que modo vos houvestes
para dar cabo da praga?
— Derramei o pó comprado
sobre o corpo, cama e lixo;
nenhum lugar foi poupado
onde resida tal bicho.
— Pois não é como se julga,
esse o melhor dos caminhos!
Apanhai com jeito a pulga,
pulverizai-lhe os olhinhos.
— Se posso mais facilmente
com este dedo esmagá-la...
— Não serei eu quem sustente
que a pulga assim não estala!