José Joaquim Correia de Almeida
De nossos politicões, Patriotas de empreitada, Gigantes feitos de anões, Classe bem-aventurada,
Aqui debuxo as feições. É meu defeito, não nego; Se a fazer versos me atiro, E na pena rude pego,
À direita e à esquerda firo, Dou bordoada de cego. Tenha santa paciência Qualquer nobre senhoria,
Ou qualquer nobre excelência; Sátira não injuria, Se não tem condescendência, Se do povo chego a ouvir
Tribuno inculcar-se amigo, E ao mau governo agredir, Logo resmungo comigo — O que ele quer, é subir! —
Charlatão que não conhece Um princípio, se aventura A falar no que parece Ciência intrincada, escura,
Que assaz de estudo carece! Um que não saiu da mata, E que é péssimo roceiro, Estadistas desbarata:
É completo financeiro, É perfeito diplomata. Contra o governo se inflama Para o qual hábil se pensa,
Inepto que, diz a fama, Traz a roupa na despensa, E o toucinho sobre a cama. Idiota que na escola
Não soletrou B-A-Bá, Balofos termos engrola E à luz da imprensa dá Os produtos da cachola.
Espanca cheio de gana A pureza do idioma, E a linguagem puritana Que se respeite ele toma
Por mania muito insana. Supõe que a pátria periga, Que a constituição ’stá rota, E, para que não se diga
Que não é bom patriota, Passa a mão pela barriga. Se houve mudança de cena, Desce-sobe, sobe-desce,
Eis que lança mão da pena, E defendendo aparece O que, há pouco, ele condena. Já do povo se esqueceu,
Só quer dar força ao poder, E se alguém comprometeu, A ninguém pode valer, Quando todo o mundo é seu.
Uma fita logo vem, Um empregozinho ganha, E as exigências que tem Por sua ambição tamanha,
Cumpridas, tudo vai bem! Enche a boca de canalha Esse quidam, que exerceu Nobre ofício de navalha,
E hoje traz ao peito seu A pendente maravalha! E eu então, simplório, que Não conheço maganões;
Qual este foi e qual é, Digo cá com meus botões: Quem te viu, e quem? te vê!
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