O imenso poder dos reis
Sustentas, que vem dos céus!
Que nos curvemos quereis
Tão submissos como réus
Perante os caprichos seus,
Postos acima das leis!
Não é bom que interpreteis
Altos mistérios de Deus!
Um rei perverso
É criatura
Que mais apura
A do universo
Bela harmonia!
Porém, contudo,
Dê no que der,
Eu cá não mudo
De parecer:
E destarte não iludo
A quem me ouvir e atender.
Por essa regra,
Se a vil serpente
Peçonha negra
Filtra no dente,
Isso anuncia
Que sendo a cobra,
Como o rei é,
Divina obra,
Nos morda o pé?
Deus também criou de sobra
O pau que chamam — ipê!