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1820–1905

O SAPATEIRO

José Joaquim Correia de Almeida

Muito trabalha O sapateiro, Sentado à banca O dia inteiro.

Logo que brilha O arrebol, No fio passa Duro cerol.

Sempre sentado E nunca em pé, Segura a forma C’o tira-pé.

À sola esfrega Áspera lixa, Nos próprios dentes O couro espicha.

Puxa a palmilha Como bater No duro cepo, Até crescer.

Por desbastar Move o cutelo, Por estender Bate o martelo.

A escova empunha De quando em vez, O botim lustra De bom freguês,

Que a molhadura De oitenta réis, Lhe retribui Para pastéis.

Toma a medida Para o calçado, Se não de cócaras, Ajoelhado.

Se os dedos fura Com a sovela, Tudo isso é nada, É bagatela.

E as obras dele Tão trabalhadas Por nossos pés Serão pisadas?

Pois vingativo Seja desforro; Sapatos faça, Mas de cachorro.

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O SAPATEIRO · José Joaquim Correia de Almeida · Poetry Cove