Muito trabalha
O sapateiro,
Sentado à banca
O dia inteiro.
Logo que brilha
O arrebol,
No fio passa
Duro cerol.
Sempre sentado
E nunca em pé,
Segura a forma
C’o tira-pé.
À sola esfrega
Áspera lixa,
Nos próprios dentes
O couro espicha.
Puxa a palmilha
Como bater
No duro cepo,
Até crescer.
Por desbastar
Move o cutelo,
Por estender
Bate o martelo.
A escova empunha
De quando em vez,
O botim lustra
De bom freguês,
Que a molhadura
De oitenta réis,
Lhe retribui
Para pastéis.
Toma a medida
Para o calçado,
Se não de cócaras,
Ajoelhado.
Se os dedos fura
Com a sovela,
Tudo isso é nada,
É bagatela.
E as obras dele
Tão trabalhadas
Por nossos pés
Serão pisadas?
Pois vingativo
Seja desforro;
Sapatos faça,
Mas de cachorro.