Skip to content
1820–1905

O RECRUTA

José Joaquim Correia de Almeida

o sol de nosso trópico abrasava As planícies do fértil Paraíba: Ocultavam-se os pássaros no mato, E a importuna monótona cigarra

Doía nos ouvidos. O mormaço Causava agudas dores de cabeça, Porque o clima não é do ameno campo Do aurífero país chamado — Minas.

E o tropeiro que já descarregara A frasqueira, a barrica, o fardo grosso, Sobre o couro no rancho ora descansa Das fadigas de péssimos caminhos.

A calma é excessiva; corre em bicas O suor; mordem moscas e mosquitos. Enfadonha sazão para viagens! Um tropel que do Norte se levanta

Desperta o bom tropeiro. — Aí vem gente! Quem será?... Tanto pó que sobe aos ares Deixa supor que a multidão avulta. Já se aproximam: há sujos bigodes,

Espingardas, bonés, espadas nuas, Diabo e mais diabo a cada passo, Aqui e ali aspérrima lambada Para conter ilesa a disciplina.

Contrastam estas vozes outras vozes, Suspiros arrancados das entranhas, O pungente soluço intercortado De imprecações ao céu pedindo a morte.

O nome de Jesus, o Santo nome, Uma, duas, três vezes repetido Ouve-se de maneira que contrista! Retinem as cadeias, o chão tinge-se

De salpicos de sangue, sangue humano! Horroroso espetáculo medonho! Que tantos infelizes carregando Algemas vis que os pulsos enegrecem?!

— São levados à corte. — O que fizeram? Que gênero de crimes e façanhas Tentaram? de que modo delinquiram? Dos réus da inconfidência serão filhos

Que ainda expiam hoje esse infamante Labéu que lhes deixou o atrevimento De rebeldes vassalos ascendentes? — Não!... são moços que vão para recrutas

Das falanges do Império Brasileiro! Ali vai muito filho de viúva; Muito esposo arrancado da consorte, Na última eleição porque não deram

Um voto escrupuloso ao candidato Mimoso da polícia carinhosa. Eis o crime que os leva encorrentados, E deem-se por felizes porque as vidas

Se lhes tem conservado! — Vidas tristes! — Recusam sustentar com seu sufrágio O paternal governo? Pois defendam Agora a Pátria e o Trono com a pele!

E o mais é que o sistema prosseguido De fazer de recrutas criminosos Há de sempre dar ótimos soldados.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.