Skip to content
1820–1905

O PASSARINHEIRO

José Joaquim Correia de Almeida

Não posso louvar o instinto Que revela o caçador, De sangue vendo-se tinto Sem compaixão e sem dor.

Todo o seu prazer é o campo, Onde se julga feliz, Quando o seu fiel Melampo Lhe levanta uma perdiz.

Apenas a caça voa, A arma no ponto ele pôs, Crendo talvez cousa boa Da ave ser o mau algoz.

Contra a perdiz inocente Fizeram conspiração O caçador, a serpente, E o carnívoro gavião.

Sem a desculpa da fome, Na posse de fruto e mel Merece afrontoso nome O caçador mais cruel.

Vem cá, meu passarinheiro, Paixão de caça tens tu? Pois leva o teu perdigueiro, E rasteja um urutu.

Se não basta ainda, ataca Um ninho de cascavéis, Nem poupes a jararaca, E traze-me cinco ou seis.

Desfia a bucha de palha, Tempera a pedra e o fuzil E sem piedade espalha O chumbo contra o réptil.

Se destarte praticares, A meu ver, farás assim Milhares sobre milhares De benefícios sem fim.

São tais inimigos do homem Assaz dignos de morrer; Os seus venenos consomem, O seu bote é de doer.

Não é de hoje a inimizade, E já vem muito de trás! Por que combater não se há de Tanto mal que se nos faz?

Da serpe invejosa e astuta Os raciocínios de fel Inspiraram a conduta Da mãe e do pai de Abel.

E o passarinho que pia, E donde o mal não provém, Que ação má cometeria? Qual a culpa que ele tem?

Bater o fraco é vileza, Bater o forte é valor; Porém de outro modo reza Cartilha de caçador.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
O PASSARINHEIRO · José Joaquim Correia de Almeida · Poetry Cove