Nas horrorosas cenas que ensanguentam
As páginas da história
Enxerga-se a medonha catadura
Do nefando duelo.
Desar da natureza postergada,
Inspiração do inferno,
Este monstro hediondo nos coloca
Muito abaixo dos brutos.
Sim; que os brutos ferozes não exercem
Enfurecida raiva
Senão contra animal reconhecido
De outra espécie diversa.
Entretanto, dirão, na culta Europa,
Na Europa inteligente
Afrontas de família, questões de honra,
Decidem-se à pistola.
Se a maldizente língua detratora
Amargo fel destila
Para tisnar a cândida virtude
Da pudica donzela;
Se ao público empregado, de conduta
Não mesclada de opróbrio,
Na prática do ofício melindroso
Sem razão acusaram
Trêmula mão arroja às ímpias faces,
Aos lábios da calúnia
Essa luva funesta, esse evidente
Sinal de desafio.
E eleitos dous padrinhos, escolhido
Lugar, e hora marcada,
Ofensor e ofendido se apresentam
Dispostos ao combate.
Contados vinte passos de distância,
Armas engatilharam
Ambos fizeram fogo, e pelo menos
Algum caiu ferido.
Eis como recupera-se o precioso
Enxovalhado crédito;
Eis como se restauram foros de honra
De cumpridos deveres!
Irresistível força de argumento,
Brilhante silogismo,
Exato nas premissas, exatíssimo
Na final consequência!
E que ousado atrevido tentaria
Fazer objeção forte
À vigorosa lógica de sangue
Da cultivada Europa?...
Quem?... Eu to digo, o mínimo? prosélito
Desse livro sublime,
Divina coleção de santas máximas
Evangelho sagrado.