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1820–1905

O DUELO, ODE

José Joaquim Correia de Almeida

Nas horrorosas cenas que ensanguentam As páginas da história Enxerga-se a medonha catadura Do nefando duelo.

Desar da natureza postergada, Inspiração do inferno, Este monstro hediondo nos coloca Muito abaixo dos brutos.

Sim; que os brutos ferozes não exercem Enfurecida raiva Senão contra animal reconhecido De outra espécie diversa.

Entretanto, dirão, na culta Europa, Na Europa inteligente Afrontas de família, questões de honra, Decidem-se à pistola.

Se a maldizente língua detratora Amargo fel destila Para tisnar a cândida virtude Da pudica donzela;

Se ao público empregado, de conduta Não mesclada de opróbrio, Na prática do ofício melindroso Sem razão acusaram

Trêmula mão arroja às ímpias faces, Aos lábios da calúnia Essa luva funesta, esse evidente Sinal de desafio.

E eleitos dous padrinhos, escolhido Lugar, e hora marcada, Ofensor e ofendido se apresentam Dispostos ao combate.

Contados vinte passos de distância, Armas engatilharam Ambos fizeram fogo, e pelo menos Algum caiu ferido.

Eis como recupera-se o precioso Enxovalhado crédito; Eis como se restauram foros de honra De cumpridos deveres!

Irresistível força de argumento, Brilhante silogismo, Exato nas premissas, exatíssimo Na final consequência!

E que ousado atrevido tentaria Fazer objeção forte À vigorosa lógica de sangue Da cultivada Europa?...

Quem?... Eu to digo, o mínimo? prosélito Desse livro sublime, Divina coleção de santas máximas Evangelho sagrado.

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