A fortuna caprichosa
Conspirou-se contra mim;
Sentei-me por meus pecados,
Na cadeira de latim.
Engenhos de transcendência,
Talentos aquilatados,
Neste museu de rapazes
São por mim apreciados.
Aquele moço de tino
Liga bem duas ideias;
Supõe que Dido era macho,
Que era fêmea o pio Eneias.
Que de cólicas não faz
Ouvir um pobre pascácio
Dizer falsos testemunhos
Contra Ovídio e contra Horácio!
Em ode, que chamam, sáfica
Diz o vate que a cidade
Temeu que se renovasse
Do dilúvio a c’lamidade,
Quando Proteu multiforme
Os escamosos rebanhos
Apascentou nos cabeços
Desses oiteiros camanhos;
Quando os peixes foram ter
Aos elevados raminhos,
Habitação conhecida
Somente dos passarinhos.
Pergunta o lente ao discípulo
A razão por que galgaram
As montanhas, e nas árvores
Guelrosos peixes tocaram.
Foi porque, meu padre-mestre,
Morreu de velho o seguro:
Recearam afogar-se,
Segundo bem conjecturo.