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1820–1905

EU AMO...

José Joaquim Correia de Almeida

Para que o censor não ladre fazendo papel de cão, hoje oferece-lhe o Padre cheiroso manjericão.

Retraindo a virulência, seja o crítico sagaz; luzeiro por excelência dê luz melhor que a do gás.

— Eu amo isto, isto e mais isto, — se o diz tanto vate bom, ao desejo não resisto de ferir o mesmo tom.

Eu amo sem ter amores, confesso a Vossemecês; no galicismo há primores, eu amo como o francês.

Eu amo a sombra do monte. A razão querem saber? Ela traz frescura à fonte, onde os asnos vão beber.

Por esta ingenuidade pode-se ver quem eu sou! Saiba toda a humanidade que a asneira já começou.

Eu amo o alegre passeio, no qual se encontra em geral fardado com todo o asseio pacífico General.

Eu amo o herói da Esquadrilha que, fugindo do escarcéu, vai dançar uma quadrilha, e acredita estar no céu.

Eu amo o bonito drama, que no teatro se pôs; se lhe não percebo a trama, aplaudo quem o compôs.

Eu amo e estudo a novela, que é leitura mui gentil, e acendo vela e mais vela, para não perder um til.

Eu amo a fábula certa de Giges com seu anel, patranha no livro inserta, e bem digna de painel.

Eu amo o grande erudito que nos fala de Irminsul, e encontrou São Benedito cá na América do Sul.

Eu amo estridentes notas, desconhecidas de Orfeu, quando, tiradas as botas, deitado espero Morfeu.

Eu amo a triste harmonia, recheada de bemóis; música sem agonia não vale dous caracóis.

Eu amo a baixa cantiga, o canto de estilo chão; não se perca por antiga a regra do cantochão.

Eu amo, como tesouro, voz que não pode subir, e do cantor faz besouro, cujo cantar é zumbir.

Eu amo o assanhaçu, ave que, conforme se sabe, há no Brasil, onde é suave a goela do sabiá.

Eu amo o obscuro retiro, para melhor poetar; Vantagens que daí tiro não se podem computar.

De etimológico y grego em palavras de pury eu amo o adequado emprego, verbi grafia, Mucury.

Eu amo (e quem é que odeia?!) linguagem só do Brasil; da portuguesa cadeia desprenda-se algum fuzil.

Eu amo acesos rastilhos que vão queimar os sermões de Herculano e dos Castilhos, de Tolentino e Camões.

Eu amo essa algaravia que enfumaça o B-A-Bá, locução que se atavia de fusco Tupinambá.

Eu amo os tais envelopes, que aos sobrescritos dão fim; mais que o guarani do Lopes. o francês é nosso afim.

Eu amo o estilo prolixo, pois o conciso é azar; fina pérola no lixo, que o frango sói desprezar.

Eu amo o grosso pleonasmo, acho o excesso menos mau; aproveito o metaplasmo, quais muletas de bom pau.

Eu amo os óculos fixos do professor de latim que os prefixos e sufixos sabe tim-tim por tim-tim.

Eu amo a frase que ranja, e não me posso arrufar, se doce eufonia arranja rouco tambor a rufar.

Sentado à porta da rua, olhos pregados no céu, eu amo a pálida lua, quando se ostenta sem véu.

Salve, ó tu mãe do refluxo e fluxo de ondas azuis! Eu amo teu magno influxo, tu nos poetas influis.

Eu amo os altos planetas, cujos cursos comparei; graças às minhas venetas, poeta aéreo serei.

Eu amo os cálculos longos, que aos astrônomos convêm, sobre os astros caudilongos, que não dizem donde vêm.

Contra os regelos da bruma eu amo, e porto por fé, a doce amargura de uma palangana de café.

Eu amo o ardente cigarro, gosto tanto de fumar, que, se algum apanho, agarro, e não me o venham tomar.

Eu amo a turva fumaça, sem desdenhar o bolor; sei que a senhora se maça, mas o sarro é grato olor.

Eu amo o desinteresse do bom Padre capelão, que daquilo só carece com que se compra o melão.

Eu amo e louvo a perícia de Hipocrático Doutor que escarlatina e icterícia não distingue pela cor.

Eu amo o jurisconsulto que ensejo nunca perdeu, e, sobre o que lhe eu consulto, a razão sempre me deu.

Eu amo ajusta mão d’obra do despacho que me dá o juiz que se não dobra, qual forte jacarandá.

Eu amo essa luz mortiça do embaciado fanal que supre o sol da Justiça, e ilumina o tribunal.

Eu amo o bom missionário que prega, sem ter à mão vernáculo dicionário, para emendar-lhe o sermão.

Eu amo a empo lada frase com que o pregador comum o entusiasmo me abrase, embora eu fique em jejum.

Eu amo a roupa escarlate de Romano Cardeal, ainda que o Vigilate quebre esse gozo ideal.

Eu amo em dias de gala o desplante do Barão, a quem a corte regala, e os parvos invejarão.

Eu amo alguns dos Viscondes, por inversão Condes Vis; de baralho sejam Condes, e tenham grã-cruz de Avis.

Eu amo o que se descobre de bazófia no Marquês: para bom fim o seu cobre nem arrancado a torquês.

O eleitoral cabalista eu amo, se por um triz não engole toda a lista afixada na Matriz.

Eu amo a candidatura do amigo particular: só alma cândida atura tão quadrada circular.

Eu amo o representante que vai tratar da Nação, e se mostra um bom tratante, como os colegas o são.

Eu amo do parlamento o sucoso discutir: é do espírito alimento, não deixa de divertir.

Eu amo os mil disparates, que hão de chegar a milhões, quando a casa dos orates acolher esses tralhões.

Eu amo o copo de uma água tão pura como o cristal, alívio da sede e mágoa do orador que não é tal.

Eu amo o aspecto jucundo do azedo discutidor que excede a lave iracundo em ser mais trovejador.

Eu amo, aplaudo e respeito certas palavras de mel, que reservaram no peito quarenta arráteis de fel.

Se o Estadista na tralha apanhado luta em vão, eu amo as penas da gralha usurpadas ao pavão.

Eu amo a uniformidade do que é com o que foi: felicite a nossa idade progresso a passo de boi.

Eu amo e admiro a acrimônia dos partidos do país: ataque sem cerimônia corta o mal pela raiz.

Eu amo o testa de ferro, que assine os escritos teus; se ao costume não me aferro, obstam estímulos meus.

Eu amo os casos amenos que um exato boletim conta, pouco mais ou menos, de fantástico motim.

Eu amo o lerdo sendeiro que na entrada foi leão, retrato assaz verdadeiro de Luís Napoleão.

Eu amo a tenra menina, inocentinha de truz, que aceita cravo ou bonina, dá seu muxoxo, e diz — cruz! —

Se vaidosa criatura tinge a cara de carmim, a rubra caricatura eu amo longe de mim.

Eu amo tal sabichona que, afeita a politicar, argui, quando se apaixona, El-Rei de Madagascar.

Eu amo a que desentoa na modinha ou no lundu, e, espevitando-se à toa, ganha aplausos do Mandu.

Eu amo a terra das canas, qual chistoso Salomé; são iaiás americanas peccatum meum contra me.

Se ameníssimo Bernardo já teve a ideia feliz de coroar-se de nardo para cantar o nariz,

a independência do espirro eu amo, e sempre amarei; capaz de o reter nem Pirro, nem mais poderoso rei.

Eu amo o anúncio de enterro aqui feito no Jornal por quem se acha no desterro, e de si não dá sinal.

Eu amo, ao cair da lousa, nicrologia veraz, porque sei que a pia cousa choromigando lerás.

— Que serviços meritórios! Que filho digno dos pais! — Sim, eu amo palanfrórios entre suspiros e ais!

— Que serviços meritórios! Que filho digno dos pais! — Sim, os vossos vomitórios, nicrólogos, não poupais!

Eu amo o justo desprezo com que patrícios me leem, e é vantagem não ’star preso por aplausos que me deem.

Eu amo e julgo a ação boa, enquanto melhor não for; destarte chego a Lisboa perfumado de alcanfor.

Eu amo a sátira rija, e o meu fim é corrigir; se não há quem se corrija, ninguém posso coagir.

Eu amo... ninguém se iluda, ao ouvir esta expressão, crendo-me aluno que estuda primeira conjugação.

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