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1820–1905

EPÍTOLA 1ª

José Joaquim Correia de Almeida

Amigo e valente Alferes, Eu te desejo saúde, Como é lícito que esperes Por tua exemplar virtude.

Não falo em virtude à toa, O vício, que tanto estraga, Pode fazer que nos doa N’alma e corpo muita chaga.

Vamos, porém, ao que importa! Do sapato rompo a sola, Vou bater à tua porta, Para pedir-te uma esmola.

Não digas tu que eu gracejo, De graças não sou amigo; Quem pede, vencendo o pejo, De porta em porta, é mendigo.

Por ironia não tomes Se te alcunho — o Manda-chuvas — Do distrito de João Gomes, Paróquia do Chapéu d’Uvas.

Resolvia presentar-me Nesta eleição candidato, E, embora a cabala se arme, Conto com teu patronato.

Em circunstância tão séria, Meu Alferes, me protege! Quem necessita (oh! miséria!) Dizem ter cara de herege.

Quebre a sátira seu dente, Longe daqui o epigrama; Que aspirante ou pretendente Desenvolvo meu programa.

Por ser homem de princípios (Neste tempo cousa rara!) A favor dos municípios O meu empenho não para.

Um cargueiro de projetos Eu levo para a assembleia, De seus diversos objetos Mal podes fazer ideia.

Hão de cruzar-se as estradas Por esta província toda, Serão macadamizadas, Conforme hoje em dia é moda.

Conseguiremos o efeito, Sem excesso de trabalho, Para cobrir todo o leito Virá da Europa o cascalho.

Por consequência o transporte Será rápido e barato, Quer seja do sul ao norte, Quer do campo para o mato.

Quanto a dinheiro, este sobra, Orcei-o a bico de pena; É pequenina a mão d’obra Da Saudade a Barbacena.

Daqui se dirige a estrada Aos de Minas vários pontos, A despesa é quase nada, Não chega a milhões de contos.

O reverso da medalha É de vistas estupendas, Afianço que não falha Uma só de tantas rendas.

Para ser inda mais curta Uma distância tamanha, Muita barca estará surta Nas águas do Mar de Espanha.

Fácil é o que se deseja, E não espero debalde Que o sertão em breve seja Do grande empório arrabalde.

O lixo, que tanto abunda Nesse Rio de Janeiro, Sendo importado fecunda O estéril solo Mineiro.

Essa riqueza da rua, Que não nos trará desdouro, A província retribua Com seus diamantes e ouro.

E adotada uma tabela No Rio Preto e mais portos, Renderão gorda parcela Direitos que não são tortos.

Lindas joias diamantinas Do Tijuco e da Bagagem Se exportarão cá de Minas Por estradas de rodagem.

Inda há muito lucro certo, Não duvides, meu Alferes, Tornando-se o longe perto, Como é lícito que esperes.

Coa rapidez do caminho, À qual deixarás de opor-te, Comerão queijo fresquinho Os habitantes da corte.

Enquanto ligeiro e astuto O demônio esfrega um olho, Arrecada-se o tributo Da exportação do repolho.

Cumprirei tão certamente O que te prometo e auguro, Que passo para o presente A linguagem do futuro.

Pitangui, cidade morta, Enchendo fangas e fangas, Revive, porque transporta Pitangas e mais pitangas.

Sabará já não se abate, Que decaia não suponhas; Rende-lhe mais que o do mate O comércio de Congonhas.

Na exposição e na feira, Onde há barracas de lona, Já se vende da Oliveira Óleo excelente e azeitona.

Não devo perder o ensejo, Que para nós se encaminha, A favor do lugarejo, Tua pátria e pátria minha.

Há de cessar essa pena, Há de cessar essa mágoa Que a gente de Barbacena Padece por falta de água.

Em barril sobre a cabeça Água fresca suba o monte, E destarte se abasteça A cidade nessa fonte.

Para não me fazer guerra O bom povo Ouro-pretano, A benefício da terra Já tenho engenhado um plano.

Se não pode em Vila Rica Girar uma só carruagem, Remediado isso fica Nessa imensa ladeiragem.

Será posto em cada rua, Por dar trânsito, um sarilho; Deste modo não se sua, E poupa-se muito milho.

Hei de propor mil escolas Primárias e secundárias, Em que nossos rapazolas Estudem matérias várias.

Por querer tudo moderno, Proscrevo o latino idioma; O latim não seja eterno, Exceto na eterna Roma.

Eu, neste ponto, acho boa A reforma huminosa; Porém voltemos a proa, Que isto é verso, não é prosa.

Receio que o bom Rodrigo, O meu velho amigo Bretas, Ao ler-me diga consigo: Ora bolas, ora petas.

Em São João del-Rei pretendo Um curso de agricultura, Donde o povo irá colhendo Ventura sobre ventura.

Eu te o digo sem disfarce, Será principal doutrina O modo de cultivar-se A laranja e a tangerina.

E como alguns São-Joaneiros Nos foguetes acham gozo, Aprenderão em canteiros A cultivar fedegoso.

Proporei, que se improvise De Minas Gerais o mapa; Quando isto se realize Um só lugar não me escapa.

A seguinte descoberta, De evidência intuitiva, Aprovação terá certa, E há de ganhar muito — viva.

A máquina fotográfica Sobre a lua se sustenha, E, com certeza geográfica, A província se desenha.

Porém... caluda! segredo! Se a descoberta descobrem, Desde já vou tendo medo Que os impropérios me sobrem.

Há invejosos nesta terra Que, empregando ruins dictérios, Podem mover dura guerra Aos meus projetos aéreos.

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