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1820–1905

EPÍSTOLA 2ª

José Joaquim Correia de Almeida

Eu sou aquele que outrora Me apresentei condidato, E me apresento inda agora Fiado em teu patronato.

Se alguém me chama enfadonho, Se alguém me acusa de teima, Esse embargo a que me oponho Lá por isso não me queima.

Ao lugar de Deputado A gente que é candidata Tenha o rosto encouraçado, Tenha sangue de barata.

Alferes José Roberto, Meu refúgio e desempenho, Hoje de novo me aperto, E ao beneplácito venho.

Neste sistema de votos, Que em progresso se abastarda, Eu sou um dos teus devotos, Tu és minha salvaguarda.

De prestígio não és pobre, A independência não falta; Quem a dera a muito nobre Que está em posição mais alta!

Além de tua franqueza, Que em nenhum caso desmentes, Tens por essa redondeza Muitas dúzias de parentes.

E estando todos de acordo, Como entre vós é costume, O teu auxílio tão gordo Se estende, não se resume.

Se o Venâncio, teu sobrinho, Grande influência da Pomba, Quiser lá ser meu padrinho, Tenho um padrinho de arromba.

Porque da outra vez, Alferes, De votos me deste um zero, Que eu recue não esperes, Que prossigas não espero.

Há um rifão que decerto Não se toma por chalaça, O qual é, meu bom Roberto, — Quem porfia mata caça —.

Eu bem sei que estou exposto A revezes e derrotas, Mas, se tiver tal desgosto, Não te hei de meter as botas.

Cumpro o dever de avisar-te, Que aceito qualquer aliança; Até no campo Marte Com ela tudo se alcança.

Quem neste foro litiga Lá em seus cálculos ponha Que a transação pacto ou liga Não compromete a vergonha.

Que importa que sejas urso, Ou mesmo que sejas boto, Se teu valioso concurso Pode render algum voto?!

São hipóteses que assento, Não te equiparo a tais bichos; Combater é meu intento Rançosos princípios fixos.

Fixa só tenho esta ideia, Embora alguns não concordem, Que entrando eu para a assembleia, Tudo está na melhor ordem.

’Stou na regra, pois trabalha Cada um para que entre, E, se a crença se baralha, Ao menos salva-se o ventre.

Por saber que és erudito, Do sábio Menênio Agripa A fábula não repito Sobre o mérito da tripa.

Dos nobres a governança, Nessa fábula tão lisa, É comparada coa pança, Que decerto a simboliza.

Decaiu desde essa data Do bom caráter o orgulho, E o patriota anda à cata Daquilo que enche o bandulho.

Se teus escrúpulos o exigem, Eu explico, e não te iludo, Que é daí que teve origem O nome de barrigudo.

E quem outro rumo toma A virtude não concebe Dos barrigudos que em Roma Afugentaram a plebe.

Da lábia fazendo emprego Conciliador foi Menênio, E, chegando o povo ao rego, Teve lugar o convênio.

Mas não gastemos palavras Com fatos de Roma prisca, Noutras minas, noutras lavras Minha bateia faísca.

O tempo não corre, voa; Aproveitemos as horas, Pois, segundo se apregoa, Venter non patitur moras.

A eleição nos bate à porta, E nem tudo está conforme, Ficará de cara torta Quem alto dia inda dorme.

Põe-te a caminho, ó patrono, De polainas e de alforjes, Em Baependi não tem sono Teu rival Andrade Borges.

Mãos à obra, meu valente, Descobre teu peito à bala; Não te mostres indolente, Minado pela cabala.

Eu te afirmo, com verdade, Que em nada te comprometo; Ao contrário, teu nome há de Figurar num poemeto.

A eleição me favoreça, E esquecido dos favores Não serei eu quem pareça A ti e aos mais eleitores.

As tuas prezadas cartas Não deixarei sem respostas, Que às barrigas menos fartas Eu não sei virar as costas.

Não terás de que te queixes, E já que nisto se toca, Dou razão, razão aos feixes Ao povo da Juruoca.

Na ginástica o político Adestre perna e cintura, Aliás toma-se raquítico, E incapaz de uma mesura.

Quem nas mesuras não prima, E não faz mil cortesias, Perde o equilíbrio lá em cima, E cá embaixo as simpatias.

Eu prometo não ser parco, Nas carícias e no afago; De outro modo afunda o barco, E, triste de mim, naufrago.

Já conservo de memória Um discurso de improviso, E hei de contar muita história, Entre apoiados e riso.

Por ser contador de histórias, Tu não me chames histórico; Práticas são ilusórias, Eu sou liberal teórico.

Liberal e saquarema A um ovo se compara, Eu por mim prefiro a gema, Deixo que gostes da clara.

Cada qual pense a seu modo, O pensar alheio acato; Com isso não me incomodo, Palavra de candidato.

Na outra epístola fiz-te Um milhão e mil promessas, Esse papel não foi triste, Pois por aí vejo dessas.

Como é estilo, armei a rede, Para apanhar os peixotes, E quis imitar adrede Os autores de calotes.

Desta vez prometo pouco, Mas prometo alguma cousa; Bem pode passar por louco Quem muito prometer ousa.

Silêncio, silêncio, amigo, Escuta, que o caso é sério! No que em seguida te digo Avalia meu critério!

Sobre a questão importante De emancipar nossos manos, Hei de fazer num instante Serviço de muitos anos!

Tem-se dado liberdade Só ao escravo que é macho, Ficando a cara metade No cativeiro mais baixo!

Porque segue ao ventre a prole, A escravidão não se extingue, Enquanto aí não se bole, Enquanto um só filho vingue!

Pois bem! Eu tenho um projeto Acerca do belo sexo, E por meio mui direto Decepo o odioso nexo.

É que se um termo assinasse De ser infecunda a escrava, A raça de negra face Em breve se emancipava!

Se a minha bisca se embarca, Um aviso do ministro Mande ter cada comarca Um livro para registro.

E meu nome desta sorte Voará de terra em terra, Pela América do Norte, E filantropa Inglaterra.

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