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1820–1905

DEUS

José Joaquim Correia de Almeida

Se atento eu reparo nas pétalas finas das flores que adornam viçosas campinas, o esmero das tintas me fala de Deus. Se escuto enlevado suaves arpejos,

que n’alma refinam celestes desejos, a doce harmonia me fala de Deus. Se após a fadiga por vales e montes, licor me oferecem as límpidas fontes,

o puro refresco me fala de Deus. Se os olhos me encanta formosa donzela, que quanto mais cândida é tanto mais bela, gentil criatura me fala de Deus.

Se as nuvens despedem trovões que rebramam, e vozes etéreas o imenso proclamam, a grã tempestade me fala de Deus. Se a peste, se a fome, se as iras da guerra

devastam, enlutam mil povos na terra, exemplo ou castigo me fala de Deus. Se de ouro e de sedas o rico se cobre, e o frio traspassa farrapos do pobre,

a vida futura me fala de Deus. Se o justo padece contínuos abalos, enquanto o malvado não perde regalos, balança de Arcanjo me fala de Deus.

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