Se atento eu reparo nas pétalas finas
das flores que adornam viçosas campinas,
o esmero das tintas me fala de Deus.
Se escuto enlevado suaves arpejos,
que n’alma refinam celestes desejos,
a doce harmonia me fala de Deus.
Se após a fadiga por vales e montes,
licor me oferecem as límpidas fontes,
o puro refresco me fala de Deus.
Se os olhos me encanta formosa donzela,
que quanto mais cândida é tanto mais bela,
gentil criatura me fala de Deus.
Se as nuvens despedem trovões que rebramam,
e vozes etéreas o imenso proclamam,
a grã tempestade me fala de Deus.
Se a peste, se a fome, se as iras da guerra
devastam, enlutam mil povos na terra,
exemplo ou castigo me fala de Deus.
Se de ouro e de sedas o rico se cobre,
e o frio traspassa farrapos do pobre,
a vida futura me fala de Deus.
Se o justo padece contínuos abalos,
enquanto o malvado não perde regalos,
balança de Arcanjo me fala de Deus.