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1820–1905

CARNAVAL

José Joaquim Correia de Almeida

Em tudo este mundo finge e ri da credulidade! Arquemos hoje coa esfinge, extorquamos-lhe a verdade.

Deixemos, leitor, os ramos, os cartões e o bom confeito; em boa paz discorramos em coisas de mais efeito.

Tolentino zombeteiro, autor de frases amenas, teve papel e tinteiro das benévolas camenas.

Se com tal favor não conto por me ser Apolo adverso, darás benigno desconto às pobrezas do meu verso.

Acho bom que nos postemos nesta esquina, a ver quem passa. Ocasião hoje temos de rir de tanta trapaça.

Que figuras esquisitas, qual a qual com mais asseio! Se temes, leitor, e hesitas, é sem causa o teu receio.

Inofensivo cortejo ao folguedo se encaminha; não temas, eu te protejo; vem! dá-me o braço e caminha!

— Eia! o ânimo recobra! De riso quase arrebento! Se é homem aquela cobra, por que gritas por São Bento?

— Cuidas que a frágil bengala te queiram fazer em cacos, se conseguem empolgá-la esses trêfegos macacos?

Isto é pantomima ou farsa. — E se este, de verde-gaio, se reveste e se disfarça, nem por isso é papagaio.

Mas coa falsa bicharia nossa atenção não gastemos: mais saborosa ucharia para a crítica hoje temos.

Essa corja se afugente e fora daqui se lance; só a beliscar em gente nossa audácia se abalance.

Aquele que os outros guia, e é figura que se nota, com ares de fidalguia faz o papel de janota.

Se hoje tem fina casaca, e chapéu que as nuvens roça, já transportou muita saca, por ser homem de carroça.

— Repara no magistrado, paramentado de beca. Músico em vez de letrado, vive do arco e da rabeca.

— Vês o ancho brigadeiro, com bordadura na gola? Infame estalajadeiro, gato por lebre degola.

Hoje garboso se ostenta, brandindo luzente espada; amanhã terá oitenta ou mais fregueses da empada.

— Vês o nobre cavaleiro, com seu hábito da Rosa? Vende lama de atoleiro, por tinta de caparrosa.

— Vês ali o sacerdote de negras roupas talares? O bom disfarce é grão dote, mas longe de nossos lares.

O devasso libertino sob a máscara se oculta; na crápula e desatino é o horror da genta culta.

— Vês ali apavonada a figura de um Visconde? Estupidez e mais nada sob a máscara se esconde.

— Vês aquele missionário que descobre a fronte lisa, e qual mestre em seminário nossas ações moraliza?

Denunciá-lo à justiça fora bom, mas não assino; senão, contra mim se atiça o furor desse assassino.

— Repara nessas maneiras do mercador de alta escala, que, por não dizer asneiras, impassível ouve e cala.

É taverneiro distinto, e a profissão feliz, boa; faz vinho que se diz tinto, põe-lhe o letreiro — Lisboa —.

— Não ouves como conversa gente de voz tão macia, e a discussão toda versa em reis e diplomacia?

Uns falam pró, outros contra; mas sezões me chova a lua, se na súcia não se encontra mais de um arrais de falua.

— Não vês o aspecto sombrio daquele capitalista que dos homens de mais brio é o primeiro na lista?

Desmazelado caixeiro é o tal senhor Francisco, pois o balcão de mau cheiro deixa coberto de cisco.

— Não vês aquele adotivo professor de medicina, que no olhar meditativo mostra saber o que ensina?

Se te descubro o sujeito, juro que a rir te escangalhas. Não reconheces o jeito do atalhador de cangalhas?

— Não vês aquele monarca, de manto, cetro e coroa? O pobretão não tem na arca um vintém para boroa.

— Não vês o ancião que alveja, encolhido e desdentado? Nele cumpre que se veja um Conselheiro d’Estado!

A antítese certamente não pode ser mais exata: é fresco, é jovem, e ou mente ou não ata, nem desata.

— Não vês lá o candidato repartindo circulares? Quanto ele seja cordato é fácil de calculares.

Criado de galão branco, ou servente de ucharia, se o carnaval achou franco, a senatória acharia.

— Que de heróis do tempo antigo aquele grupo arremeda! Aí tens, leitor, contigo povo Assírio, gente Meda.

— Caminha ao lado d’Isócrates o longímano Artaxerxes. — Aspásia, mestra de Sócrates, caminha ao lado de Xerxes.

— Como acolá se mistura, como se tem confundido na viva caricatura a triste, mesquinha Dido!

Trai o amoroso contrato e, conforme se crê, usa do proceder mais ingrato o viúvo de Creúsa.

Não repilas, não enxotes, meu leitor, o pio Eneias! Repugna louvar Quixotes rendidos a Dulcineias!

— Horácio empina um almude, para animar estas cenas; pede aos deuses não se mude de entre os viventes Mecenas.

É filósofo o brejeiro, e não há quem o apoquente; acha tudo lisonjeiro, contanto que ele ande quente.

— Virgílio ali se complica no reboliço da rua; a surdos e ao vento explica o préstimo da charrua.

— Ovídio suave e belo, carpindo suas desgraças, recomenda ao seu libelo que evite o palácio e as praças.

Do Capitólio descera, todo assombrado de um raio; porém o Nasão de cera ainda nos brada: Honrai-o!

Minha razão é tão romba, que, a despeito dos mentores, nisto acho exemplo de arromba a futuros escritores.

— Cícero acolá por gesto se explica, e o sobrolho enruga; ora folheia o Digesto, ora coça na verruga.

Foi bem apanhado o absurdo (perdoem-me os palradores): representa um mudo-surdo o maior dos oradores!

— Mostra o copo como emblema do alto oficio Ganimedes. — Risca e resolve um problema coo pau no chão Arquimedes.

— Aquela figura austera grave balança equilibra, cujo fiel não se altera por mais libra, menos libra.

Parodia o justiceiro sábio Minos, rei de Creta; instinto de carniceiro só leis de sangue decreta.

— Caro leitor complacente! Nas noções que passo a dar-te o meu estro se ressente da falta de engenho e d’arte.

Se acaso não tens notícia dos habitantes do Olimpo, esta canalha fictícia eu te vou tirar a limpo.

— Ali o velho Saturno que devora e não mastiga, nos recorda taciturno a régia ambição antiga.

— Este é Júpiter potente, sem corretivo, absoluto; ninguém o ódio lhe tente, se não quer em casa luto.

Bem o conheço, e se o digo não é para seu desdoiro; como pode este mendigo transformar-se em chuva d’oiro?!

— Aquele, de arnês provido, se bem não posso afirmar-te, pelo menos tenho ouvido ser o bélico deus Marte.

Porém desde que ele há sido lembrado para recruta, não tem amadurecido no meu quintal uma fruta.

Quando a guerra nos assola, dou-te um bolo se o apanhares; aproveita-se da sola, e dá giz nos calcanhares.

— O que traz bigorna e tomo, e martela férreo cano, da gâmbia pelo transtorno mostra ser o deus Vulcano.

— Este que empunha o tridente com movimento importuno, que me caia mais um dente se não é o deus Netuno.

— Esta cara luzidia menos mal finge a de Apolo, que ministra luz e dia à esfera de polo a polo.

— Aquele que ri à toa oferecendo tabaco, e canta, mas não entoa, bem mostra ser o deus Baco.

— Prosérpina, Juno e Astreia, da maneira mais burlesca, também fazem sua estreia na cena carnavalesca.

Armado de arco e de frechas aquele rapaz despido, que em tantos peitos faz brechas, é o magano do Cupido.

— Trazem naquela berlinda fogosíssimos cavalos a personagem mais linda, e ninguém ousa estorvá-los.

A deidade se mascara e grande ilusão me gera; mas se lhe descubro a cara, Vênus torna-se Megera.

— Ali vem uma donzela, de Vesta sagrada ao culto; a sacra pira que zela não lhe iguala ao fogo oculto.

É outra a realidade, que não digo por decência; conhece-a meia cidade; tem por alcunha: Inocência.

— Entre sedas e veludo, sobre macia almofada, olha, leitor, não te iludo, lá se recosta uma fada.

Mas não acredites nela; é nossa vizinha Olaia. Ou à porta ou na janela há muitas da mesma laia.

— Formando-se justa ideia, que ilação daqui se tira? Tanto deus e tanta deia, tanto herói tudo mentira!

O carnaval nos retrata o mundo em miniatura; a verdade é coisa ingrata, por isso reina a impostura.

Perdão, gente galhofeira! Melhor que estes meus resumos, a próxima quarta-feira diz: Pulvis et umbra sumus.

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