José Joaquim Correia de Almeida
Em tudo este mundo finge e ri da credulidade! Arquemos hoje coa esfinge, extorquamos-lhe a verdade.
Deixemos, leitor, os ramos, os cartões e o bom confeito; em boa paz discorramos em coisas de mais efeito.
Tolentino zombeteiro, autor de frases amenas, teve papel e tinteiro das benévolas camenas.
Se com tal favor não conto por me ser Apolo adverso, darás benigno desconto às pobrezas do meu verso.
Acho bom que nos postemos nesta esquina, a ver quem passa. Ocasião hoje temos de rir de tanta trapaça.
Que figuras esquisitas, qual a qual com mais asseio! Se temes, leitor, e hesitas, é sem causa o teu receio.
Inofensivo cortejo ao folguedo se encaminha; não temas, eu te protejo; vem! dá-me o braço e caminha!
— Eia! o ânimo recobra! De riso quase arrebento! Se é homem aquela cobra, por que gritas por São Bento?
— Cuidas que a frágil bengala te queiram fazer em cacos, se conseguem empolgá-la esses trêfegos macacos?
Isto é pantomima ou farsa. — E se este, de verde-gaio, se reveste e se disfarça, nem por isso é papagaio.
Mas coa falsa bicharia nossa atenção não gastemos: mais saborosa ucharia para a crítica hoje temos.
Essa corja se afugente e fora daqui se lance; só a beliscar em gente nossa audácia se abalance.
Aquele que os outros guia, e é figura que se nota, com ares de fidalguia faz o papel de janota.
Se hoje tem fina casaca, e chapéu que as nuvens roça, já transportou muita saca, por ser homem de carroça.
— Repara no magistrado, paramentado de beca. Músico em vez de letrado, vive do arco e da rabeca.
— Vês o ancho brigadeiro, com bordadura na gola? Infame estalajadeiro, gato por lebre degola.
Hoje garboso se ostenta, brandindo luzente espada; amanhã terá oitenta ou mais fregueses da empada.
— Vês o nobre cavaleiro, com seu hábito da Rosa? Vende lama de atoleiro, por tinta de caparrosa.
— Vês ali o sacerdote de negras roupas talares? O bom disfarce é grão dote, mas longe de nossos lares.
O devasso libertino sob a máscara se oculta; na crápula e desatino é o horror da genta culta.
— Vês ali apavonada a figura de um Visconde? Estupidez e mais nada sob a máscara se esconde.
— Vês aquele missionário que descobre a fronte lisa, e qual mestre em seminário nossas ações moraliza?
Denunciá-lo à justiça fora bom, mas não assino; senão, contra mim se atiça o furor desse assassino.
— Repara nessas maneiras do mercador de alta escala, que, por não dizer asneiras, impassível ouve e cala.
É taverneiro distinto, e a profissão feliz, boa; faz vinho que se diz tinto, põe-lhe o letreiro — Lisboa —.
— Não ouves como conversa gente de voz tão macia, e a discussão toda versa em reis e diplomacia?
Uns falam pró, outros contra; mas sezões me chova a lua, se na súcia não se encontra mais de um arrais de falua.
— Não vês o aspecto sombrio daquele capitalista que dos homens de mais brio é o primeiro na lista?
Desmazelado caixeiro é o tal senhor Francisco, pois o balcão de mau cheiro deixa coberto de cisco.
— Não vês aquele adotivo professor de medicina, que no olhar meditativo mostra saber o que ensina?
Se te descubro o sujeito, juro que a rir te escangalhas. Não reconheces o jeito do atalhador de cangalhas?
— Não vês aquele monarca, de manto, cetro e coroa? O pobretão não tem na arca um vintém para boroa.
— Não vês o ancião que alveja, encolhido e desdentado? Nele cumpre que se veja um Conselheiro d’Estado!
A antítese certamente não pode ser mais exata: é fresco, é jovem, e ou mente ou não ata, nem desata.
— Não vês lá o candidato repartindo circulares? Quanto ele seja cordato é fácil de calculares.
Criado de galão branco, ou servente de ucharia, se o carnaval achou franco, a senatória acharia.
— Que de heróis do tempo antigo aquele grupo arremeda! Aí tens, leitor, contigo povo Assírio, gente Meda.
— Caminha ao lado d’Isócrates o longímano Artaxerxes. — Aspásia, mestra de Sócrates, caminha ao lado de Xerxes.
— Como acolá se mistura, como se tem confundido na viva caricatura a triste, mesquinha Dido!
Trai o amoroso contrato e, conforme se crê, usa do proceder mais ingrato o viúvo de Creúsa.
Não repilas, não enxotes, meu leitor, o pio Eneias! Repugna louvar Quixotes rendidos a Dulcineias!
— Horácio empina um almude, para animar estas cenas; pede aos deuses não se mude de entre os viventes Mecenas.
É filósofo o brejeiro, e não há quem o apoquente; acha tudo lisonjeiro, contanto que ele ande quente.
— Virgílio ali se complica no reboliço da rua; a surdos e ao vento explica o préstimo da charrua.
— Ovídio suave e belo, carpindo suas desgraças, recomenda ao seu libelo que evite o palácio e as praças.
Do Capitólio descera, todo assombrado de um raio; porém o Nasão de cera ainda nos brada: Honrai-o!
Minha razão é tão romba, que, a despeito dos mentores, nisto acho exemplo de arromba a futuros escritores.
— Cícero acolá por gesto se explica, e o sobrolho enruga; ora folheia o Digesto, ora coça na verruga.
Foi bem apanhado o absurdo (perdoem-me os palradores): representa um mudo-surdo o maior dos oradores!
— Mostra o copo como emblema do alto oficio Ganimedes. — Risca e resolve um problema coo pau no chão Arquimedes.
— Aquela figura austera grave balança equilibra, cujo fiel não se altera por mais libra, menos libra.
Parodia o justiceiro sábio Minos, rei de Creta; instinto de carniceiro só leis de sangue decreta.
— Caro leitor complacente! Nas noções que passo a dar-te o meu estro se ressente da falta de engenho e d’arte.
Se acaso não tens notícia dos habitantes do Olimpo, esta canalha fictícia eu te vou tirar a limpo.
— Ali o velho Saturno que devora e não mastiga, nos recorda taciturno a régia ambição antiga.
— Este é Júpiter potente, sem corretivo, absoluto; ninguém o ódio lhe tente, se não quer em casa luto.
Bem o conheço, e se o digo não é para seu desdoiro; como pode este mendigo transformar-se em chuva d’oiro?!
— Aquele, de arnês provido, se bem não posso afirmar-te, pelo menos tenho ouvido ser o bélico deus Marte.
Porém desde que ele há sido lembrado para recruta, não tem amadurecido no meu quintal uma fruta.
Quando a guerra nos assola, dou-te um bolo se o apanhares; aproveita-se da sola, e dá giz nos calcanhares.
— O que traz bigorna e tomo, e martela férreo cano, da gâmbia pelo transtorno mostra ser o deus Vulcano.
— Este que empunha o tridente com movimento importuno, que me caia mais um dente se não é o deus Netuno.
— Esta cara luzidia menos mal finge a de Apolo, que ministra luz e dia à esfera de polo a polo.
— Aquele que ri à toa oferecendo tabaco, e canta, mas não entoa, bem mostra ser o deus Baco.
— Prosérpina, Juno e Astreia, da maneira mais burlesca, também fazem sua estreia na cena carnavalesca.
Armado de arco e de frechas aquele rapaz despido, que em tantos peitos faz brechas, é o magano do Cupido.
— Trazem naquela berlinda fogosíssimos cavalos a personagem mais linda, e ninguém ousa estorvá-los.
A deidade se mascara e grande ilusão me gera; mas se lhe descubro a cara, Vênus torna-se Megera.
— Ali vem uma donzela, de Vesta sagrada ao culto; a sacra pira que zela não lhe iguala ao fogo oculto.
É outra a realidade, que não digo por decência; conhece-a meia cidade; tem por alcunha: Inocência.
— Entre sedas e veludo, sobre macia almofada, olha, leitor, não te iludo, lá se recosta uma fada.
Mas não acredites nela; é nossa vizinha Olaia. Ou à porta ou na janela há muitas da mesma laia.
— Formando-se justa ideia, que ilação daqui se tira? Tanto deus e tanta deia, tanto herói tudo mentira!
O carnaval nos retrata o mundo em miniatura; a verdade é coisa ingrata, por isso reina a impostura.
Perdão, gente galhofeira! Melhor que estes meus resumos, a próxima quarta-feira diz: Pulvis et umbra sumus.
Cookies on Poetry Cove