São Macário, no deserto
suportando sóis e chuvas,
em dia de jejum certo
recebeu um cacho de uvas.
Por não quebrar o preceito,
não leva aos dentes um bago,
e a outro ermitão perfeito
as remete sem estrago.
Este segundo a terceiro
oferece o belo cacho,
que viaja intacto e inteiro,
sem passaporte ou despacho.
Do terceiro vai ao quarto,
que, solitário abstinente,
apesar de menos farto,
a quinto envia o presente.
Dirige o cacho este quinto
para Macário a seu turno,
e só assim fica extinto
esse giro diuturno.
Lei diversa nos regula
neste tempo derradeiro!
Peca-se tanto na gula,
que este conto verdadeiro
faz que a saliva se engula.