Auriverde papagaio
Na gaiola sopeado
Da valições de retórica
Em discurso castigado.
E cantor melodioso
De grave ou de aguda nota,
No brasileiro lundu
Trunfava de basto e sota.
Era o mimo da família,
Do senhorio as delícias;
Dava o pé, dava piolho,
Recebia mil carícias.
Quem o solfejo lhe ouvira,
E ouvira a eloquência rara,
Munido de entendimento
E de razão o julgara.
Do pássaro ilustre o dono
Assentou para consigo
Mandá-lo no dia de anos
De presente a um amigo.
Assim fez, e noutro ensejo
C’o bom amigo se junta.
— Recebeste o papagaio? —
Eis a primeira pergunta.
— Obrigado, diz aquele,
Por um tão belo presente:
Manduquei-o com arroz,
E como estava excelente!