José Joaquim Correia de Almeida
Musa, por que aprofundas Assuntos os mais graves? Repara, não te encraves: Não te lances à toa em barafundas.
Não sejas altaneira, Abaixa tua grimpa; Vê, não a fuças limpa, Não te metas em frota sem bandeira.
O mar da poesia Contém seus arrecifes, E os ligeiras esquifes, ’Stão sujeitos ao vento e à calmaria.
Compram-se muito caras As glórias do Parnaso; Não queiras por acaso Vestir-te de camisa de onze varas.
Não presta, nada vai Verso pouco adubado, O qual sendo provado, Dizem logo — Ora bolas, falta o sal.
Não presta, nada vai O verso sem conceito; Diz o sábio direito: — Isto é cediço, aquilo é trivial.
Não presta, nada val O verso que despreza A doutrina que reza Dos austeros preceitos da moral.
Se ignoras tantas leis, Jogas a cabra cega: A vintém nunca chega Aquele que nasceu para dez réis.
Conserva-te na praia, Bem longe do mar alto; Não te tomem de assalto, Ao som dos assobios e da vaia.
A quem escreve é preciso Juízo disponível; É mais do que possível Pelas obras mostrar que não tem siso.
Deixa-te pois de histórias, Musa; já tenho dito, E agora inda repito — Do Parnaso são caras as tais glórias.
Muito te aventuraste, Musa pouco modesta, E não escapas desta, Porque daquelas outras escapaste.
Se já fizeste vasa, Julga-te satisfeita; Este conselho ace ita: — De uma vez desmorona e cai a casa.
Sê prudente e discreta, E verás se te iludo; Evita antes de tudo Os labirintos como esse de Creta.
Deixa questões profundas Aos engenhos mais graves; É fácil que te encraves, Se te lanças à toa em barafundas.
O mar da poesia Tem seus bancos de areia, E a lancha, que vagueia, Está sujeita ao vento e à calmaria.
Deixa-te pois de histórias, Musa; já tenho dito, E agora inda repito — Do Parnaso são caras as tais glórias.
Ao teu estilo chocho, Ao teu metro emperrado, Será bem aplicado, Bem trazido, o satírico muxoxo.
Põe-te a viola em cacos O censor que te lê, E sem quê nem pra quê, Decide enfim que vás pentear macacos.
De sentenças tão justas E bom que não agraves; Olha não te encraves; O apelo da sentença aumenta as custas.
Aceita este conselho, Musa sem tom nem som: — Fazer um verso bom É difícil, tem dente de coelho.
E há muitos Aristarcos Que para rebaixar-te Podem apelidar-te — Musa rasteira, musa vil dos charcos.
Deixa-te pois de histórias, Musa; já tenho dito, E agora inda repito — Do Parnaso são caras as tais glórias.
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