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1820–1905

À MINHA MUSA

José Joaquim Correia de Almeida

Musa, por que aprofundas Assuntos os mais graves? Repara, não te encraves: Não te lances à toa em barafundas.

Não sejas altaneira, Abaixa tua grimpa; Vê, não a fuças limpa, Não te metas em frota sem bandeira.

O mar da poesia Contém seus arrecifes, E os ligeiras esquifes, ’Stão sujeitos ao vento e à calmaria.

Compram-se muito caras As glórias do Parnaso; Não queiras por acaso Vestir-te de camisa de onze varas.

Não presta, nada vai Verso pouco adubado, O qual sendo provado, Dizem logo — Ora bolas, falta o sal.

Não presta, nada vai O verso sem conceito; Diz o sábio direito: — Isto é cediço, aquilo é trivial.

Não presta, nada val O verso que despreza A doutrina que reza Dos austeros preceitos da moral.

Se ignoras tantas leis, Jogas a cabra cega: A vintém nunca chega Aquele que nasceu para dez réis.

Conserva-te na praia, Bem longe do mar alto; Não te tomem de assalto, Ao som dos assobios e da vaia.

A quem escreve é preciso Juízo disponível; É mais do que possível Pelas obras mostrar que não tem siso.

Deixa-te pois de histórias, Musa; já tenho dito, E agora inda repito — Do Parnaso são caras as tais glórias.

Muito te aventuraste, Musa pouco modesta, E não escapas desta, Porque daquelas outras escapaste.

Se já fizeste vasa, Julga-te satisfeita; Este conselho ace ita: — De uma vez desmorona e cai a casa.

Sê prudente e discreta, E verás se te iludo; Evita antes de tudo Os labirintos como esse de Creta.

Deixa questões profundas Aos engenhos mais graves; É fácil que te encraves, Se te lanças à toa em barafundas.

O mar da poesia Tem seus bancos de areia, E a lancha, que vagueia, Está sujeita ao vento e à calmaria.

Deixa-te pois de histórias, Musa; já tenho dito, E agora inda repito — Do Parnaso são caras as tais glórias.

Ao teu estilo chocho, Ao teu metro emperrado, Será bem aplicado, Bem trazido, o satírico muxoxo.

Põe-te a viola em cacos O censor que te lê, E sem quê nem pra quê, Decide enfim que vás pentear macacos.

De sentenças tão justas E bom que não agraves; Olha não te encraves; O apelo da sentença aumenta as custas.

Aceita este conselho, Musa sem tom nem som: — Fazer um verso bom É difícil, tem dente de coelho.

E há muitos Aristarcos Que para rebaixar-te Podem apelidar-te — Musa rasteira, musa vil dos charcos.

Deixa-te pois de histórias, Musa; já tenho dito, E agora inda repito — Do Parnaso são caras as tais glórias.

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