Skip to content
1820–1905

A LANTERNA DE DIÓGENES

José Joaquim Correia de Almeida

Diógenes, diz a história, Quando o sol resplandecia, Lanterna acesa trazia, Procurando aquém, e além,

Um homem, homem de bem. E malhava em ferro frio; Pois a fazenda que busca, Dia claro ou noite fusca

Dificilmente aparece Inda que um prego acendesse. Se nesses dourados tempos Como cousa esquiva e rara

Homem de bem se catara, Que será nos tempos de hoje Em que a virtude nos foge? Que será em nossas eras,

Em que o vício horrendo e feio, Anda solto, anda sem freio, Praticando excessos tais, Que nunca houve outros iguais?

Premunido da lanterna, Que Diógenes trazia, Como ele outrora fazia, Eu procuro aquém, além,

Um homem, homem de bem. Nas patranhas mitológicas, Nessa impostura faceta, Com seu ressaibo de peta,

De Jano é duplo o semblante, Uma trás, outro adiante. Na quadra do positivo, Da verdade nua e crua,

Pela estrada, pela rua A cada passo deparas Sujeito de duas caras. Uma para prometer,

A outra para cumprir, Uma quando vem pedir, A outra quando lhe rogo A satisfação do — logo.

No grêmio da gente sã, E na mais polida roda, Está no rigor da moda, No próprio ou negócio alheio

Da mentira o galanteio. E vive a mil maravilhas O mentiroso impudente: Não há nada que não tente,

E se no mentir não cansa, Quanto exige, tanto alcança. Porque papalvos há sempre, Sempre dispostos à pulha,

E sem matinada ou bulha, Com balda de sabichões Engolem carapetões. — Palavra de Rei não volta-

Era adágio antigamente; Mas na época presente Vai d’avante para trás, Como o caranguejo faz.

Ali não vês o magnate A quem tributam respeito E cortes ias a eito? Em mui breve relatório

Eu te explico o meninório. É rico, mas não herdou De a um parente por morte; Não consta tirasse sorte,

Nem descobrisse tesouro, Ou nas minas veia de ouro. De flexível consciência Já tem hábito de usura,

E da humana criatura No tráfego ou contrabando Vai a fortuna aumentando. E porque o mundo assim é,

E quem está dando as cartas. E as barrigas menos fartas Acreditam, mas em vão, Que ele vai fabricar pão.

Porém — coitadas! — iludem-se, Pois certamente o ricaço É na utilidade escasso, E quando ao favor se obriga,

Serve a riqueza de figa. Já tens observado bem Todos os traços do vulto Daquele jurisconsulto?

Quando considera e pensa, ’Stá ponderando a sentença. Não sei porém distinguir Se é sacerdote de Astreia;

Pois, segundo minha ideia, Também o mercador lança Seus produtos na balança. Naquele fidalgo gira

O sangue de Reis avós; Sobre o peito se lhe pôs Perto da Grã-Cruz da Rosa De Comendas uma grosa.

Entretanto na taverna Não lhe fiam dez tostões, E em desar de seus brasões, E a despeito das bravatas

Mandam-no plantar batatas. Inventou-se na política Certo palavrão de fuma, Seja pro grama o u pro-trama,

Como quer que ele se tome, Não se perca pelo nome. Por índole do sistema Há dous partidos na terra;

Enquanto um ateia a guerra, O outro tece louvaminhas Ao governo das papinhas. Será convicção que os move,

Amor da Pátria que os guia Na batalhada porfia? Sê-lo-á, sê-lo-não-á, Ou será, ou não será!

Em véspera de eleições O candidato se empenha, Oferecendo a resenha De meditados projetos

Tão salutares quão retos. Dos sufrágios espontâneos Passado o momento crítico, Procede como político;

As promessas não recorda, E ao votante rói a corda. Eis ali um fazendeiro Símbolo da probidade!

Veio passear à cidade A ver se tem crescimento O preço do mantimento. Inda não julga bastante

Dos comestíveis a falta, E o farelo à espera de alta Do paiol vai para o sol E do sol para o paiol.

Se há carestia de víveres, E a peso de ouro se come, Quem terá culpa na fome, Que despido e já sem capa

O mísero pobre rapa? Vês o padre a folhear O seboso breviário? Está fazendo inventário

Das sobras que reservadas Servem pra maior de espadas. Se é pastor, não dá pastagem; Se é pároco ou cura de almas,

Nem dos mártires as palmas, Nem de espinhos a coroa Lhe parecem cousa boa. Não obstante, o povo crédulo

Intitula-o — — E cheio de assombro e espanto Chega a descobrir indícios De penitência e cilícios.

Nem tudo que luz é ouro, E assim Deus me dê saúde. Como do padre a virtude, Não sendo metal sem liga,

Tem muito que se lhe diga. Se aplicando atentamente Óculos, lanterna, e vista Passei exata revista

Sem achar o que procuro, A lanterna dependuro. Mas não perdi meu trabalho; Pois estudei as fraquezas

Das humanas naturezas, E das conclusões, que tiro, Este juízo profiro: Presumir homem de bem

Tudo quanto veste calça, Seria uma ideia falsa Capaz de induzir ao erro O espírito menos perro.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
A LANTERNA DE DIÓGENES · José Joaquim Correia de Almeida · Poetry Cove