Depois que o tempo torna bonançoso E a noite vem tranquila em branda calma, De ouvir o mais do sonho portentoso Se acende a todos o desejo n’alma;
E no empenho do belga belicoso, Desejando escutar quem teve a palma, Suplicam Catarina que prossiga Na narração do sonho e tudo diga.
“Vi (prossegue a matrona) em Marte duro Confundir-se o Brasil, vagar potente O bátavo feroz, e o reino escuro Encher Plutão da desditosa gente.
Vi descendo as milícias do céu puro A plebe inerme com o zelo ardente Infundir valor tal, que conte a história Por milagre do céu cada vitória
Petrid e Íolo, raios da marinha, Com esquadra do pélago senhoras, Qualquer do lado seu queimado tinha Com chamas o Brasil desoladoras;
Petrid a frota que das Índias vinha Com procelas de fogo abrasadoras, E nas naus lavra, de tesouros cheias, Ao infausto Brasil novas cadeias.
Máquina move o belga ambiciosas, Suprindo os gastos com a imensa prata; E, armando em guerra esquadras numerosas, Ocupar Pernambuco ao luso trata:
Nem As forças da Holanda poderosas Opõe o hispano, com a nova ingrata, Tal socorro que a praça na contenda Do grão-poder dos bátavos defenda.
Rege de Pernambuco a terra extensa O intrépido Albuquerque, a tudo atento. Guarnece a praça, os esquadrões condensa, Dispõe ao fogo o bélico instrumento,
Quando à maneira de floresta densa Se viu coberto o líquido elemento, Onde proas setenta o mar rompiam, E o Wandemburgo general seguiam.
Chamam Pau amarelo um sítio ao lado Da cidade que a frota acometia. Cômodo ao desembarque e mal guardado De Albuquerque, que as praias defendia:
Ali, com quatro legiões formado, A bela Olinda o bátavo se envia Onde com turmas de inexperta gente E opôs o luso chefe ao belga ardente.
Nem muito dura ao fogo desusado O tímido esquadrão da gente lusa, Que, do insólito horror preocupado, A fuga empreende em multidão confusa:
Um sobre outro, ao fugir precipitado, Render-se ao fero belga não recusa; E, a cidade infeliz deixando aberta Qualquer se salva donde mais o acerta.
Entra o holandês na praça abandonada, E quando de riqueza a cuidou cheia, Em triste solidão desamparada, E acha sem prêmio a cobiçosa idéia
Vingam nos templos a intenção malvada, E o altar profanam com infâmia feia, Tratando o pio rito e o santo culto Com sacrílega mente e horrendo insulto.
Mas não sofre da fuga o torpe medo O valente fortíssimo Temudo; E, tendo ao lado o intrépido Azevedo, A espada empunha embaraçando o escudo.
Ao ser do saco no funesto enredo A forma do holandês turbar-se em tudo, Une alguns, que, odiando a vil fugida, Dão por preço da glória a heróica vida.
“Oh, disse, honra imortal do nome luso, Corações valorosos, que em tal sorte Fazeis da doce vida o melhor uso, Comprando a glória com a invicta morte!
Vedes sem forma o bátavo confuso, Da valorosa espada exposta ao corte: Corra-se às armas, que, se os não vencemos, Sem a pátria vingar não morreremos.”
Disse; e, empregando a fulminante espada, Uma esquadra invadiu que discorria, Com cálices da igreja profanada, Que com insulto em derrisão metia;
De uns a fronte no chão deixou truncada, De outros o peito com o ferro enfia, De alguns, que insano acometendo freme, Talhado o braço sobre a terra treme.
Azevedo entre os mais, que no chão lança, Tendo das balas empregado o impulso, Com fero golpe de alabarda alcança De Ruiter, que o acomete, o horrível pulso:
Despoja-o da arma e furioso avança, Deixando-o em terra com tremor convulso, Cornelisten derriba e o ferro emprega Em Blá, que todo o chão com sangue rega.
Com fúria igual e impulso destemido Invade contra o bátavo a caterva, E, bem que a legião em corpo unido, Em roda ao luso disparando ferva,
Resiste o português nunca rendido, Enquanto a vida com vigor conserva, Até que sobre os belgas derribados Caíram mortos sim, porém vingados.
Tem por nome Arrecife um forte posto, Que um istmo separou do continente, Donde o Castelo de S. Jorge oposto Defende o passo ao trânsito iminente.
Ali fazia aos inimigos rosto O bravo Lima, que do belga ardente, Sem mais que trinta invictos defensores, Trezentos sacrifica aos seus furores.
Pasma de assombro Wandemburgo insano, Nem pode crer, se o não convence a vista Que com força tão pouca o lusitano De dois mil belgas ao furor resista.
Sai com todo o poder e ocupa o plano, E em forma regular tenta a conquista; E nem assim o Lima ao fogo cede, Enquanto auxílio ao general não pede.
Recobrava-se entanto valorosa Do primeiro terror a lusa gente, Que. inexperta da pugna belicosa, Cedera no improviso do acidente.
E, acompanhando em tropa numerosa Do intrépido Albuquerque o ardor valente, O belga usurpador pelas ribeiras Cercaram com redutos e trincheiras.
Plantam depois um forte acampamento, Donde se insulte o bátavo inimigo; Nem deixavam que um só pudesse isento Sair sem dano ao campo, ou sem perigo.
Cortam-lhe o passo, impedem-lhe o sustento, Nem lhe concedem no terreno abrigo, E, ocupando-lhe o giro dilatado, O belga cercador deixam cercado.
Dois mil dos seus guerreiros escolhidos Contra Albuquerque Wandenburg avança; Mas achavam os lusos prevenidos Do seu valor na nobre confiança:
Caíam das trincheiras rebatidos Do fogo os belgas, ou da espada e lança, E, sem que combatendo a mais se arrojem, Em desordem do campo à praça fogem.
Com quatro companhias numa armada Socorro de Lisboa recebendo, Foi outra vez a tropa reforçada Com gente e munições noutra de Oquendo:
Mil mosqueteiros, tropa exercitada, No duro jogo de Mavorte horrendo, S. Felice conduz mestre de guerra Mas menos apto na que usava a terra.
Com socorro maior de Holanda armado Contra Itamaracá corre o inimigo; Duas vezes, porém, foi rechaçado Com perda o belga para o noto abrigo
A Paraíba e Rio Grande enviado, Mudava de lugar, não de perigo; E, já menos bisonha a lusa topa, Põe em fuga o holandês, se em campo o topa.
A Wandemburgo no holandês império Sucedera Rimbach em guerras noto, Que. estimando dos belgas vitupério Ser cada dia pelos nossos roto,
Enquanto celebrava atento e sério A páscoa o campo em procissão devoto, Com todo o poder bátavo acomete, E o campo em confusão, batendo, mete.
Não se interrompe a cerimônia augusta; Orando o clero com o sexo pio, Sai o ortodoxo conta a turma injusta, Tomando por sagrado o desafio;
E, fundando no céu confiança justa, Pelejam com tal fé, com tanto brio, Que. matando Rimbach em feio estrago, Deram aos belgas da blasfêmia o pago.
Mas o céu, que o flagelo destinava, Poder tão grande aos bátavos concede, Que nada a Vandescop, que os moderava, Depois desta campanha o curso impede.
Fica Itamaracá de Holanda escrava, Desfaz-se o campo, a Paraíba cede, Perde-se o Rio Grande, e noutra empresa Rende o luso o Pontal e a Fortaleza.
Salva-se o resto, da facção perdida Nas Alagoas, sítio defensável, Onde, de fero belga perseguida, Asilo busca a turba miserável.
Mas foi da Espanha em breve socorrida Com brava tropa em frota respeitável; Rosas de Borja, a Pernambuco enviado, De Albuquerque o bastão tomou deixado.
Roxas, pronto no obrar, posto em batalha, De Vandescop as tropas investia; Mas o belga Arquichofe a marcha atalha Com socorro que válido trazia
Com tenebrosa sombra os lutos talha A noite, que começa, à morte impia, Dispondo Roxas em defesa armado Esperar o socorro convocado.
Mas, logo que a manhã mostrou formosa Da batalha inimiga a forma unida, Mais não sossega a chama generosa, E investe ardente a bátava partida:
Cobre os céus a fumaça tenebrosa, Perde o hispano e o holandês na empresa a vida, E nem este, nem o outro ali vencera, Se o temerário Roxas não morrera.
S. Felice, na guerra mestre astuto, Sucede no governo ao bravo hispano, E brasílico Fábio entanto luto Salvou na retirada o lusitano.
Foi das palmas batávicas produto Governar o país pernambucano O conde de Nassau, que o belga envia, General das conquistas que emprendia.
Era Nassau nas armas celebrado, Com que ilustrava o excelso nascimento, Príncipe então no império respeitado, Nutrindo igual ao sangue o pensamento
Entrou de forte armada acompanhado, E, no Arrecife situado o assento, Levantou fortes, e em países belos Guarneceu as colônias com castelos.
Mas, aspirando a empresa memorável, Todo o exército e armada prevenia, E, achando Pernambuco defensável, Invadiu no recôncavo a Bahia.
S. Felice com resto miserável Ali novo socorro ao rei pedia, Quando ao bravo Nassau dispunha a sorte Um chefe nele opor prudente e forte
Tudo dispunha o conde em forma e arte De rebater do bátavo a interpresa, Dispõe pela cidade em toda a parte Os meios e instrumentos da defesa;
Faz grossas levas e esquadrões reparte, E, tudo preparando à forte empresa, Nada esqueceu de quanto na milícia Inventa a militar sábia perícia.
Entrava entanto pela vasta enseada Nassau, que as praias enche da Bahia Com a terrível majestosa armada Que com quarenta naus linha fazia;
E, ao som da trompa marcial tocada Em gratos ecos de hórrida harmonia, Enche a horrenda procela em tais ensaios A enseada de trovões e o céu de raios.
Entanto o claro Silva, que ocupava Do supremo governo o excelso mando, A S. Felice o posto renunciava, Ficando por soldado ao seu comando.
Heróica ação, que pela pátria obrava, Maior perícia em outrem confessando, E merecendo nela em tanta empresa Da corte aclamações, do rei grandeza.
Desembarca Nassau com turba ingente Junto de Tapagipe, e empreende o oiteiro Que nomear costuma a vulgar gente Do antigo habitador Padre Ribeiro.
Mas S. Felice, que o anteviu prudente, De posto o bate, que ocupou primeiro; E, depois que seiscentos destro mata, Em grande parte o belga desbarata.
Largos dias Nassau bate a trincheira, Que lhe opôs ao quartel Banholo à frente; Mas o belga em batalha verdadeira Por muitos dias se avançava ardente.
Cobre-se a terra em hórrida maneira De um monte de cadáveres ingente, Vendo os belgas cair, sem que desista Nassau com tanto sangue da conquista.
E já desfeito o exército se via, Ferido o oficial, e a gente morta, Sem que cessasse o ardor nos da Bahia, Que o S. Felice rege e o Silva exorta.
Pede tréguas Nassau nesta porfia, E tudo com a tropa as naus transporta, Fugindo do perigo o infausto efeito. Com perda igual de gente e de conceito.
Dois dias na enseada por vingança Bate a esquadra a cidade sem perigo, Com balas e granadas, que em vão lança, Parecendo mais salva que castigo.
Sobreveio ao Brasil nova esperança De expugnar com mais forças o inimigo; Mas foi o efeito das promessas vário, Impedindo o socorro o mar contrário.
Vi neste tempo em confusão pasmosa A monarquia em Lísia dominante, E a casa de Bragança gloriosa Nos quatro impérios triunfar reinante,
A Bahia com pompa majestosa Festejar o monarca triunfante, E o Pernambuco, de desgraças farto, Invocar pai da pátria D. João Quarto.
Tratava o novo rei com fé provada A batávica paz, que sem justiça Deixava ao mesmo tempo quebrantada O belga injusto pela vil cobiça.
Ocupa o Maranhão bátava armada, E outra esquadra em Sergipe o incêndio atiça, Pretendendo ocupar com falso engano Toda África e Brasil ao lusitano.
Cede do seu governo de afrontado O general Nassau, tornando à Holanda, Tendo o conselho do Arrecife armado Mil artifícios de calúnia infanda.
Nem contra os habitantes moderado O duro freio no governo abranda, Onde a plebe agravada que o experimenta O Jugo sacudir com glória intenta.
João Fernandes Vieira foi na empresa O instrumento da pátria liberdade, Herói que soube usar da grã-riqueza, Libertando o Brasil desta impiedade.
De amigos e parentes na defesa Tentou furtivamente a sociedade, E como a pedra a estátua de Nabuco. O belga derribou de Pernambuco.
Nomeou cabos, tropas, companhias, Pediu socorros e invocou prudente, Expondo do holandês as tiranias, O governo brasílico potente.
Avisa sem demora Henrique Dias, Capitão dos etíopes valente, E o forte Camarão, que em guerra tanta Com os seus carijós o belga espanta.
Ouse o holandês com susto o movimento; E, querendo oprimir nascente a chama, Com dois mil homens prevenia atento A nova guerra que o Vieira inflama.
Deixara o luso chefe o alojamento, E os belgas, que à cilada oculto chama, Empenhou de um lugar nas duras rocas, A que o monte chamaram das Tabocas.
Entre arbustos e canas de improviso Dispara o luso sobre a incauta gente, E, precedendo o dano antes do aviso, Desbarata o holandês com fúria ardente.
Suspende a marcha o bátavo indeciso, E, sem ver o inimigo, o golpe sente, Até que, vendo o estrago dos soldados, Cedem o campo e fogem destroçados
Holanda era potente e o luso aflito, Onde enchendo Lisboa de ameaças, Por ter notícia do infeliz conflito, Meditava ao Brasil novas desgraças.
Mas, por guardar os seus, o rei invicto Dispôs piedoso nas províncias lassas Providências que à paz chamar pudessem O tumulto em que os nossos permanecem.
Vão com dois regimentos destacados O moreno e o negreiros da Bahia A dar paz (se é possível) destinados Na guerra que o Vieira então movia.
Vieram veigas e Campos abrasados, E o colono infeliz, que perecia, Com lastima da tropa, que observara, Todo o estrago que o belga ali causara.
Avistado o Negreiros e o Vieira “Venho (disse o primeiro) a prisão dar vos, Por haver provocado a ira estrangeira A uma guerra que acabe de assolar-vos.”
“É justo que eu também prender-vos queira; Mas será (disse o herói) com abraçar-vos.” E, assim dizendo, alegre move o passo, E os dois recebe com festivo abraço.
Outro tanto fazia a tropa unida Ao invicto esquadrão pernambucano; E, aplaudindo a vitória conseguida, Detestam do holandês o enorme engano.
Nem muito tarda a gente fementida Que não abrase a esquadra ao lusitano, Onde embarcado pela paz chegara, Com o bátavo próprio o convidara.
Ouvem-se entanto os míseros clamores De turba feminina, que invocava O socorro dos seus libertadores Contra o belga cruel que a cativava.
Mas não cessa o Vieira e sem rumores O engenho, aonde incauto descansava O belga general cercado, bate, E, rendendo-o à prisão, vence o combate.
Henrique Huss, no Arrecife comandante, Era o cabo dos belgas prisioneiro, Blac rendido também, chefe importante, Subalterno nas armas do primeiro.
Foge do luso o bátavo arrogante, Espalhando fuzis no grão-terreiro, E a chama teme que no horrendo empenho Lançara o Vieira pelo vasto engenho.
Com fama de vitória tão brilhante Toma as armas a plebe e o belga invade; Serenhaem tomou, vila possante, O partido comum da liberdade.
Segue Itamaracá com fé constante, Porto Calvo e os contornos da cidade, Deixando no Arrecife sem remédio Encerrado o holandês com duro assédio,
Mas não cessa na Holanda a companhia, E ao numeroso exército que ordena, Segismundo Van-Scop por chefe envia, Munido em guerra de potência plena;
Do experto general, que desconfia O prêmio valoroso, ao fraco a pena, E empreendendo com forças o combate, O inimigo Vieira ou prenda, ou mate.
Abordando o Arrecife então cercado, A inércia dos seus chefes repreende; Nem muito tarda que no campo armado Não saia a Olinda, que expugnar emprende.
Em assalto a acomete duplicado, E a brava tropa, que ao presídio atende, Com tanto alento o bátavo rechaça, Que ferido Van-Scop se acolhe à praça.
Sem que desista da passada instância, Tenta de novo a empresa da Bahia; Mas, notando nos lusos a constância, Que injúria do poder lhe parecia,
Consome do Recôncavo a abundância Com frequentes sortidas, que emprendia, E, porque cresça na cidade o tédio, Ocupa Taparica e põe-lhe o assédio.
Teles entanto, que expulsar pretende Sem igual força o bátavo contrário, Contra o comum conselho o ataque emprende, E tudo expõe no impulso temerário
Mas, vendo o luso rei que a nada atende O belga nos seus pactos sempre vário, Manda armada ao Brasil, que poderosa A bátava nação dome orgulhosa.
Teme o golpe Van-Scop e desampara, Por guardar o Arrecife, Taparica, Antevendo que a esquadra se prepara Contra a praça, que auxílio lhe suplica.
Barreto de Menezes, que chegara De novo general patente indica, E em Pernambuco sublimado ao mando Com prudência e valor foi governando.
Nove mil homens, tropa valorosa, E com frequentes palmas veterana, Manda o bátavo a empresa perigosa, Que à guerra ponha fim pernambucana.
Ocupa o mar armada poderosa, E, dominando a praia americana, Usurpa em mar e terra alto domínio, Ameaçando dos lusos o extermínio.
Põe-se em campanha o bátavo terrível, Com sete mil de veterana tropa; Vão densos bandos de gentio horrível, Com destro gastador vindo da Europa;
E, estimando a potência irresistível, Cende ao belga a Barreta e quanto topa, Enquanto em defensiva o luso fica, E o campo contra o belga fortifica.
Segismundo, porém, que os bastimentos Em Moribeca assegurar procura, Dispunha ali tomar alojamentos, Estimando a vitória já segura.
Mas Barreto e Vieira a tudo atentos, Na justiça, que a causa lhe assegura, Confiam que na empresa o céu lhe valha, E tudo vão dispondo a uma batalha.
Nem com tanto poder Van-Scop recusa Decidir numa ação toda a contenda, Antevendo, se a perde a gente lusa, Que outra força não tem que a guerra emprenda;
E já na marcha a multidão confusa A ação começa pelo fogo horrenda, E, turbando dos belgas toda a forma, Combatem com valor, porém sem norma.
Nos montes Guararapes se alojava Formando o português, que o belga espera; E a escaramuça, que emprendera brava, Traz a sítio o holandês, que adverso lhe era;
Desde alto monte o luso fogo obrava, Com ruína dos bátavos tão fera, Que, ou seja ao lado, ou na espaçosa fronte, Se cobriu de cadáveres o monte.
Reúne os batalhões Van-Scop irado, E à frente com valor da linha posto Tenta desalojar do alto ocupado O invicto Camarão, que lhe faz rosto;
Mas, com chuva de balas rechaçado, Perde três vezes o ganhado posto, E já ferido com mil mortos cede, Em vil fuga, que a noite lhe concede.
Noventa dos seus perde o lusitano; E enquanto o belga se retira incerto, Descobre a aurora todo o monte e plano De bandeiras, canhões, e armas coberto.
Muitos ali do bátavo tirano, Perdidos pela noite em campo aberto, Deixa o dia, inexpertos nos roteiros, Nas mãos da nossa tropa prisioneiros.
Horroriza-se Holanda, pasma Europa, Exalta Portugal, canta a Bahia, Vendo-se triunfar tão pouca tropa Da terrível potência que a invadia.
Nada de humano o pensamento topa, Que em tudo a mão de Deus clara se via, Pois sempre elege para os seus portentos Os mais fracos e humildes instrumentos.
Tinha exausta a ambição, mas não cansada A cobiçosa Holanda em tal conquista; E, para novo empenho aparelhada, Escolhe os capitães e a gente alista;
Mas do Britano às armas provocada, Sobre interesse que mais alto avista, Suspende influxo na famosa empresa, Deixando em Pernambuco a guerra acesa.
Brinca este tempo, coronel valente, Impetra de Van-Scop tropa luzida, Com petrechos e número potente, Que em batalha cruel toda decida.
Cinco mil homens de escolhida gente, De canhões, e petrechos guarnecida, Põe no campo assombrado da potência, Igualando o valor com a diligência.
Com dois mil e seiscentos veteranos Fez-lhe frente Barreto e o belga invade; Correm de toda a parte os lusitanos A sustentar a pátria liberdade.
Aloja o luso sobre os mesmos planos Onde fora passada a mortandade; O belga na montanha se distingue, Um que estrago renove, outro que o vingue.
Mas Brinc, a tudo atento desde o cume, Com perícia guerreira ocupa o monte, Onde, seguindo o militar costume, Dá forma à retaguarda e ordena à fronte;
Nem tão ousado o português presume, Que em vantajoso posto o belga afronte, Esperando a ocasião dali oportuna De poder atacar com mais fortuna.
Reconhece Barreto o sítio e forma, E, vendo o ardor da lusitana gente, Que, hábil no passo, da subida o informa, Faz que o bravo Vieira ataque ardente;
E, cobrindo a invasão com sábia norma, Com o fogo protege o assalto ingente, Até que por mil casos duvidosos Vê sobre o monte os campeões briosos.
Nova batalha ali com fogo vivo Move impávido o belga e firme insiste; E, por mais que o Vieira invada ativo, Onde um corpo vacila, outro resiste.
Tal há que ainda combate semi-vivo; Tal que, cadáver já na morte triste, A terra morde e em raiva enfurecida, Blasfemando do céu, despede a vida.
A toda a parte voa o grão-Barreto, E um anima, outro ajuda, outros exorta; E, excitando no luso o pátrio afeto, Incita o fone, o inválido conforta.
Bramava o fero Brinc em sangue infecto, Entre a bátava turba opressa e morta; Assalta horrendo um batalhão potente, E outros reprime com ferócia ardente.
Mas o invencível Camarão, que o nota, Um forte troço da reserva abala; E, suspendendo a mísera derrota, Lança o belga por terra de uma bala.
Logo o almirante da soberba frota, Vendo invadido Brinc cair sem fala, Ocupa o mando, que já vago estima, E o bátavo à peleja altivo anima.
Não sofre Henrique Dias, que observava Do novo chefe a intimação constante; E de um tiro, que fero lhe apontava, Derriba morto o intrépido almirante.
Sem comandante, o belga trepidava, E, de um e de outro lado vacilante, Uma vil fuga tímido declara, E o campo com desordem desampara.
O estandarte soberbo dos Estados, Tendas, peças, bandeiras numerosas, Mil e trezentos mortos numerados, Prisioneiros, bagagens preciosas,
Muitos centos na fuga degolados, A caixa militar, armas custosas, Foram, nesta ocasião, de tanta glória, O merecido prêmio da vitória.
Cinge o Arrecife de um assédio estreito Com pronta cura o chefe lusitano; Mas, tendo longa guerra o belga feito, Era contínuo sim, mas mútuo o dano;
Até que Jacques ao comando eleito No campo se avistou pernambucano. Conduzindo em fortuita derrota Para o luso comércio a usada frota.
Por mar e terra sitiada a praça, Depois do longo assédio de nove anos, Com mil desastres fatigada e lassa, Cedeu todo o Brasil aos lusitanos:
Mercê clara do céu, patente graça, Que a tão poucos e míseros paisanos Cedesse uma nação que enchia em guerra De armadas todo o mar, de espanto a terra.
Assim modera o Padre Onipotente Do ignorante mortal a incerta sorte, Por fazer com tais casos evidente Que não é quem mais pode o que é mais forte.
Tudo rege na terra a mão potente; Dele a vitória pende, a vida, a morte; E, sem o seu favor, que o distribui, Todo o humano poder nada conclui.
Triunfou Portugal; mas, castigado, Teve em tal permissão severo ensino, Que só se logrará feliz reinado, Honrando os reis da terra ao rei divino;
E que o Brasil aos lusos confiado Será, cumprindo os fins do alto destino, Instrumento talvez neste hemisfério De recobrar no mundo o antigo império.
Vi ne sonho mil casos diferentes, Que no curso virão de outras idades. Vi províncias notáveis e potentes, Vi nascer no Brasil áureas cidades;
Famosos vice-reis e ilustres gentes, Tantos sucessos, tantas variedades, Que somente pintado, como em sombra, Confunde o pensamento, a vista assombra.
Prelados vi de excelsa jerarquia, E entre outros da maior celebridade O claro Lemos, que enriqueça um dia De novas ciências a universidade:
Ele ornará depois a academia Com construções de excelsa majestade, E em doutrina a fará com sábio modo O Ateneu mais famoso do orbe todo.”
Deu Catarina fim, e arrebatada Num êxtase ficou, vibrando ardores; Corriam pela face em luz banhada Lágrimas belas, como orvalho em flores.
Fica a pia assembléia esperançada De outros sucessos escutar maiores; E, dando tempo ao sono milagroso, No abraço a deixam do celeste esposo.
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