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1861–1898

VI

João da Cruz e Sousa

Súbito os ares enchem-se de noite E grita e zune, zargunchando o vento Que esbraveja, morde com rijo acoite O mar que espuma e empola num momento.

Não estrugem os raios pela treva Não ha trovões bravios rebentando Como canhões que estouram, — mas se eleva Do oceano um vendaval que vai urrando

Com fúrias e com cóleras enormes Como potros sanhudos relinchando Em pinotes e berros desconformes. Caiu talvez no mar o etéreo espaço,

Toda a cúpula azul tombou, quem sabe? Céus! há lutas ali, de braço a braço. Horror! Crível será que o mundo acabe? Ninguém calcula o que será tudo isso...

Mas os ventos elétricos, largados Nas amplidões do mar antes submisso, Rugindo vão como desesperados. Deus, ó meu Deus, todas as bocas gritam,

E se afervora mais e mais a crença. Mas, onde os astros muita vez palpitam No céu, há noite cada vez mais densa. Ah! que mudez de túmulo nos ares.

Nada responde, oh! nada então responde; Mas onde está o grande Deus dos mares E da terra, onde está, aonde, aonde? Tudo está mudo — a natureza inteira,

Tudo emudece e não responde nada; E só os vendavais têm a maneira De responder dando uma gargalhada. Gargalhada de lágrimas atrozes,

De lágrimas de morte e de agonia Que abafa e extingue na garganta as vozes, Gera a coragem que e a luz do dia. Ó valentes e rudes marinheiros

Vindos da pátria para pátria nova, Que sepultais amores verdadeiros Do tão profundo coração na cova; Ó viajantes de longe, de países

Onde a vida cintila e canta alerta Como um turbilhão de aves felizes Numa campina de rosais, deserta; Ó vós todos que vindes lá do oceano,

Entre as mais bruscas e hórridas tormentas. Lá do mar, alto, a vela, a todo o pano, Com as almas ansiosas e sedentas, De chegar cedo ao porto desejado,

Calculai, calculai o quanto é triste Ver dar à praia um pobre desgraçado Em cuja carne a podridão existe! À praia! À praia! Dai à praia, morto,

Rejeitado por ondas convulsivas, Indo encontrar na sepultura o porto, Deixando ao mundo as ilusões mais vivas. O eterno amor de mãe, de filho, esposa,

Tanta fé, tanto riso de alegria, Tanta coisa dourada, ai tanta coisa Que ao recordar toda a nossa alma esfria. Morrer no mar, os nervos contraídos,

Numa asfixia atroz, cerrando os dentes, Num abismo de cores e gemidos, De maldições e de uivos de descrentes; Morrer no mar, sem o farol amigo,

Esse farol que os náufragos anima, Fora de proteção, fora de abrigo, Sem sequer uma luz no espaço, em cima; Morrer no mar, sem astros no infinito,

Na solidão das águas, fria, imensa, Enquanto a treva aura de granito, Ri-se de tudo, com indiferença; Morrer no mar, só e desamparado

E num terror que não acaba nunca, Vendo rasgar o corpo enregelado O desespero como garra adunca. É horrível! Bem sei! Mas ai daqueles

Que morrem mesmo assim lá no mar fundo Sem ter alguém que ao menos neste mundo Derrame uma só lágrima por eles!

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