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1861–1898

Velho vento

João da Cruz e Sousa

Velho vento vagabundo! No teu rosnar sonolento Leva ao longe este lamento, Além do escárnio do mundo.

Tu que erras dos campanários Nas grandes torres tristonhas E és o fantasma que sonhas Pelos bosques solitários.

Tu que vens lá de tão longe Com o teu bordão das jornadas Rezando pelas estradas Sombrias rezas de monge.

Tu que soltas pesadelos Nos campos e nas florestas E fazes, por noites mestas, Arrepiar os cabelos.

Tu que contas velhas lendas Nas harpas da tempestade, Viajas na Imensidade, Caminhas todas as sendas.

Tu que sabes mil segredos, Mistérios negros, atrozes E formas as dúbias vozes Dos soturnos arvoredos.

Que tornas o mar sanhudo, Implacável, formidando, As brutas trompas soprando Sob um céu trevoso e mudo.

Que penetras velhas portas, Atravessando por frinchas... E sopras, zargunchas, guinchas Nas ermas aldeias mortas.

Que ao luar, pelos engenhos, Nos miseráveis casebres Espalhas frios e febres Com teus aspectos ferrenhos.

Que soluças nos zimbórios Os teus felinos queixumes, Uivando nos altos cumes Dos montes verdes e flóreos.

Que te desprendes no espaço Perdido no estranho rumo Por entre visões de fumo, Das estrelas no regaço.

Que de Réquiens e surdinas E de hieróglifos secretos Enches os lagos quietos Revestidos de neblinas.

Que ruges, brames, trovejas Ó velho vândalo amargo, No sonâmbulo letargo De um mocho rondando igrejas.

Que falas também baixinho Lá da origem do mistério, Trazendo o augúrio sidéreo E certa voz de carinho...

Que nas ruas mais escusa, Por tardes de nuvens feias, Como um ébrio cambaleias Rosnando pragas confusas.

Que és o boêmio maldito, O renegado boêmio, Em tudo o turvo irmão gêmeo Do sonhador Infinito.

Que és como louco das praças Nos seus gritos delirantes Clamando a pulmões possantes Todo o Inferno das desgraças.

Que lembras dragões convulsos, Bufantes, aéreos, soltos, Noctambulando revoltos Mordendo as caudas e os pulsos.

Ó velho vento saudoso, Velho vento compassivo, Ó ser vulcânico e vivo, Taciturno e tormentoso!

Alma de ânsias e de brados, Consolador companheiro Sinistro deus forasteiro D’espaços ilimitados!

Tu que andas, além, perdido, Tateando na esfera imensa Como um cego de nascença Nos desertos esquecido...

Que gozas toda a paragem, Toda a região mais diversa, Levando sempre dispersa A tua queixa selvagem.

Que no trágico abandono, No tédio das grandes horas Desoladamente choras, Sem fadigas e sem sono.

Que lembras nos teus clamores, Nas fúrias negras, dantescas, Torturas medievalescas Dos ímpios inquisidores.

Que és sempre a ronda das casas, A gemente sentinela Que tudo desgrenha e gela Com o torvo rumor das asas.

Que pareces hordas e hordas De hirsutos, intonsos bardos Vibrando cânticos tardos Por liras de cem mil cordas.

Ó vento languido e vago, Ó fantasista das brumas, Sopro equóreo das espumas, Ó dá-me o teu grande afago!

Que a tua sombra me envolva Que o teu vulto me console E o meu Sentimento role E nos astros se dissolva...

Que eu me liberte das ânsias De ansiedades me liberte, Pairando no espasmo inerte Das mais longínquas distâncias.

Eu quero perder-me a fundo No teu segredo nevoento, Ó velho e velado vento, Velho vento vagabundo!

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