Rude e membrudo deus peludo, hirsuto,
Convulso como um torvo Laocoonte,
Em que mundo, em que céu, em que horizonte
Foste gerado assim horrendo e bruto?
Que fruto podre, que maldito fruto
Envenenado, d’algum pétreo monte
Tragaste — que só tens no olhar, na fronte
E dentro d’alma o mais tremendo luto?
Que devastadas e longínquas terras,
Que sociedades, religiões e guerras
Deram-te à Dor o aspecto assim profundo?
Quem és, ó deus peludo, ó deus nefando?...
Ah! és o homem, bem sei, e vens calçando
A pata de Satã por sobre o mundo!