A vida pela cidade
Não tem dos campos no estio
A doce felicidade
Da correnteza de um rio.
Tudo são sombras, tumulto,
Pesadelos tormentosos
Em que os risos são ocultos
Por densos véus tenebrosos.
Fumo, torres, monumentos,
Soberanos edifícios,
Tudo fala dos pensamentos,
Sem nunca esconder os vícios.
Praças, templos de granito,
Ostentações formidáveis,
Tudo se enleva num grito
De tédios imponderáveis.
Dentro do luxo, do orgulho
Dos ouropéis e das sedas
Estruge e brame o marulho
Da dor, nas ondas mais tredas.
Que ser feliz é ser forte,
Ter no peito um sol fecundo
Que apague a ideia da morte
E das misérias do mundo.
Ter d’aço e bronze a radiosa
Vontade feita harmonia,
Que floresce como a rosa
E que chama alegria.
Pois dos vínculos intensos
Do sangue, como raízes,
Brotam os lírios imensos
Do amor das almas felizes.
E enquanto em rio o ouro corre
Nas cidades de ar sombrio,
Nos campos a paz não morre,
Gozada à margem de um rio.