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1861–1898

Tédio e riso

João da Cruz e Sousa

A vida pela cidade Não tem dos campos no estio A doce felicidade Da correnteza de um rio.

Tudo são sombras, tumulto, Pesadelos tormentosos Em que os risos são ocultos Por densos véus tenebrosos.

Fumo, torres, monumentos, Soberanos edifícios, Tudo fala dos pensamentos, Sem nunca esconder os vícios.

Praças, templos de granito, Ostentações formidáveis, Tudo se enleva num grito De tédios imponderáveis.

Dentro do luxo, do orgulho Dos ouropéis e das sedas Estruge e brame o marulho Da dor, nas ondas mais tredas.

Que ser feliz é ser forte, Ter no peito um sol fecundo Que apague a ideia da morte E das misérias do mundo.

Ter d’aço e bronze a radiosa Vontade feita harmonia, Que floresce como a rosa E que chama alegria.

Pois dos vínculos intensos Do sangue, como raízes, Brotam os lírios imensos Do amor das almas felizes.

E enquanto em rio o ouro corre Nas cidades de ar sombrio, Nos campos a paz não morre, Gozada à margem de um rio.

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