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1861–1898

Sombra adorada

João da Cruz e Sousa

Sempre a recordação daquela morta! Sempre esta dor e sempre esta saudade Que um dia pela minha mocidade Um féretro deixou, passando à porta.

Para que havia de morrer tão cedo Aquela que os meus beijos aqueceram, E para sempre eles também morreram Como o luar por entre um arvoredo.

Oh! antes como as monjas, ao exílio Ela entregasse o corpo alabastrino Do que extinguir a vida como um hino, Depois de tanto amor e sacrifício.

Oh! antes nunca eu lhe notasse o rosto, Nem a treva vital dos seus cabelos, Que não teria agora de assim vê-los Hirtos, gelados para meu desgosto.

Era a mais infeliz das criaturas Essa que amei com todos os carinhos! Nasceu, viveu só através de espinhos, No desespero atroz das amarguras.

Mas, afinal os pobres infelizes Que mais sabor podem gozar no mundo Senão o de sentir no chão profundo As convulsivas, trêmulas raízes!

Ah! corações ideais dos gondoreiros, Canções de amor, suavíssimas baladas, Falai-me das saudades afastadas Dos amantes que vivem forasteiros.

Barcarolas do além, canções dos mares, Voando como límpidas gaivotas Para longínquas amplidões remotas, Falai, dizei-me o que é que são pesares.

Vede como estas mágoas dilaceram, Rasgam d’espadas todo o nosso peito, Leito sombrio, devastado leito Onde os sonhos de amor todos se geram.

Os colibris, todas as aves, tudo Que voa para longe dos espaços, Ah! quantos beijos soltos, oh! que abraços Tão frios já no esquecimento mudo.

Que dor que devem ter os próprios astros Perdidos pelo tédio das esferas... Quanto pranto terão as primaveras... Que saudades de outro porto os mastros!

Quanto mais eu que a dor me punge e corta, Que saudade tamanha, ah! que saudade Terei da minha triste mocidade Que foi contigo, desgraçada morta!

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