Eu caminhava taciturno e incerto
Por debaixo das árvores solenes...
Tu a meu lado caminhavas perto,
Cheia de aromas e clarões perenes.
E as árvores vitais, luminosas,
Formando verde abóbada d’espaços
Cercavam-nos de sombras silenciosas
E nos abriam docemente os braços.
No meio dos rumores da folhagem
Ouvíamos, mais flébeis e mais finas,
As músicas chorosas da ramagem
Das esgalhadas e altas casuarinas.
E essa música lânguida e sensível,
Desfeita em sons alados, peregrinos,
Parecia uma arcada indescritível
Dos mais harmoniosos violinos.
E eu quis saber do coração profundo
Das árvores atléticas e calmas
Por que é que sempre neste vasto mundo
É a dor o grilhão das nossas almas.
Se nós que vamos soluçando e rindo
Dos vendavais sob a vergasta forte,
Não estamos talvez nos iludindo,
Vivendo para atordoar a morte!
Se o frio corpo, o coração já morto
Por dentro de uma cova escura e rasa,
Não tem a gente o mesmo igual conforto
Que dentro da afeição da sua casa!
Se o cadáver gelado e ressequido,
Dentre a ironia trágica dos vermes,
Não solta ao menos nem um só gemido
Que vibre à flor das murchas epidermes!
Se há criaturas tão desiludidas
Das venturas e glórias mais insanas,
Que não fiquem dolentes e vencidas
Sob o togante das paixões humanas!
Mas, oh! somente às legiões serenas
Das interrogações desses assuntos,
O teu olhar me respondia apenas
Com o brilho ideal de muitos astros juntos!