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1861–1898

Sob as árvores

João da Cruz e Sousa

Eu caminhava taciturno e incerto Por debaixo das árvores solenes... Tu a meu lado caminhavas perto, Cheia de aromas e clarões perenes.

E as árvores vitais, luminosas, Formando verde abóbada d’espaços Cercavam-nos de sombras silenciosas E nos abriam docemente os braços.

No meio dos rumores da folhagem Ouvíamos, mais flébeis e mais finas, As músicas chorosas da ramagem Das esgalhadas e altas casuarinas.

E essa música lânguida e sensível, Desfeita em sons alados, peregrinos, Parecia uma arcada indescritível Dos mais harmoniosos violinos.

E eu quis saber do coração profundo Das árvores atléticas e calmas Por que é que sempre neste vasto mundo É a dor o grilhão das nossas almas.

Se nós que vamos soluçando e rindo Dos vendavais sob a vergasta forte, Não estamos talvez nos iludindo, Vivendo para atordoar a morte!

Se o frio corpo, o coração já morto Por dentro de uma cova escura e rasa, Não tem a gente o mesmo igual conforto Que dentro da afeição da sua casa!

Se o cadáver gelado e ressequido, Dentre a ironia trágica dos vermes, Não solta ao menos nem um só gemido Que vibre à flor das murchas epidermes!

Se há criaturas tão desiludidas Das venturas e glórias mais insanas, Que não fiquem dolentes e vencidas Sob o togante das paixões humanas!

Mas, oh! somente às legiões serenas Das interrogações desses assuntos, O teu olhar me respondia apenas Com o brilho ideal de muitos astros juntos!

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