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1861–1898

Sganarelo

João da Cruz e Sousa

Esse que eu agora rimo É viscoso como a lesma Pegajosa sobre o limo, Sinistro como aventesma.

Feia coisa, enorme bicho, Pavoroso mastodonte Feito do horror a capricho, Com cornos rijos na fronte.

Todo o ventre se lhe estufa De obesidade lasciva, Se fala a voz urra e bufa Lembrando a locomotiva.

Na terrível carantonha Retorcida, escalavrada, Lhe estruge, às vezes medonha, Formidável gargalhada.

E à luz do sol, que corusca, Nas praças, à luz do dia, A sua presença brusca, Tem uma ardente ironia.

A língua rubra e convulsa Sai-lhe da boca em espasmo, Enquanto no olhar lhe pulsa A blasfêmia do sarcasmo.

Capra figura profunda, Atroz e amedrontadora, Que larga entranha fecunda Foi a tua geradora?!

Que aborto de ventre estranho Pode gerar esse aborto Assim feroz e tamanho, Peludo, estroncado e torto?

De que idades tão antigas, Pré-históricas vieste? Mais hostil do que as urtigas, Mais nefando de que a peste!

Trazes a pata esmagante, A pata do bronze trazes; Que é no espírito diamante E que é nas almas lilazes.

Possuis o sangue da verve Resplandecente, infinita, Que ruge, palpita e ferve E canta e soluça e grita.

Vens como imagem da Morte, Da Morte hedionda e nefasta, Das iras ao vento forte, Do desespero a vergasta.

Desmancha-te em cabriolas De doido polichinelo, Que os teus membros lembrem molas Como um palhaço amarelo.

Faz nos músculos esgrimas, Pula trapézios e barras E salta saltando estas rimas Que vão saltando bizarras.

Acrobata da miséria Estica os nervos, estica E ri, ri tu da matéria Da gente fidalga e rica.

És medonho?! isso que importa? Ri! mas ri alto na praça, Se a desgraça não foi morta, Ah! deixem rir a desgraça!

Satanás sujo e potrudo Nas cambalhotas te inspire. Eia! vá! desdém por tudo, Por tudo, e o tempo que gire!

Faz que o século se agite De eternas risadas grossas E como com dinamite Arromba o mundo com troças.

Fura o estúrdio Sancho Pança Com estocadas de riso E mete-o também na dança Dos saltos, se for preciso.

Destrói tudo, vai, desaba, De tudo faz estilhaços E a golpes de riso acaba Os erros córneos e crassos.

Fura os ventres mais rotundos Com aguilhões de chacota E manda ao Mestre dos mundos Um exemplar da risota.

Na tal luxúria gorducha, Na velha e calva luxúria Rebente risos em ducha, Com toda a sátira e fúria.

Ri! até que se transforme, O rebelado do inferno! O riso num facho enorme Aceso no sol moderno!

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