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1861–1898

Serenata

João da Cruz e Sousa

É luar! Chega à janela, Vai alta e branca a Lua bela E fria... Ó monja de áureo convento

Surgindo no peristilo, À tona do firmamento Tranquilo... Dentre as celas aparece

Nas tuas vestes talares, Vem ver dos fluidos luares A prece... Essa láctea claridade

Da noite profunda e vasta, Mais casta que a Castidade, Mais casta... Entre os trêmulos nevoeiros

E os magnetismos da Lua, Ofélia à flor dos salgueiros Flutua! O luar por tudo transborda

E tudo alaga e prateia... Bandolins gemem na corda, Sereia! Na corda feita dos fios

Das estrelas palpitantes, Dos raios, dos amavios Radiantes! Ondulam Silfos e Amores

Rendas, sedas e vidrilhos De imaculados alvores E brilhos! Do fundo dos claustros raia,

Hóstias de ouro, monja doente! Envolva-te essa cambraia Fulgurante! Que a Ceres de altas seara

De uma aréola te circunde, E na luz ideal e clara Te inunde... Que a Lua é loura entre entre as louras,

Virginal entre as mulheres E das etéreas lavouras A Ceres! Trilha os límpidos caminhos,

As celeiras luminosas, De veludosos arminhos, E rosas! A todos abre da altura,

A Bíblia dos vagos ritos, Da Quimera e da Ternura Dos Mitos... Vem, ó monja, entre as neblinas

Dos lírios, das açucenas, Das volatas peregrinas, Serenas! Como o luar do Sonho alaga,

Vem vogar do Sonho agora, Na doce, na branda vaga Sonora... Nua e soltos os cabelos,

Monja branca dos Mistérios, Ressurge através dos gelos Sidéreos. Teu corpo ebúrneo e perfeito,

De beleza intemerata, Tem no luar um níveo leito De prata... É luar! Chega à janela,

Vai alta a Lua erradia, Alta e branca a Lua bela E fria...

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