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1861–1898

Ser pássaro

João da Cruz e Sousa

Ah! Ser pássaro! ter toda a amplidão dos ares Para as asas abrir, ruflantes e nervosas, Dos parques através e dos moitais de rosas, Nos floridos jardins, nas hortas e pomares.

Ser pássaro, cantar, subir, voar na altura, Pelos bosques sem fim, perder-se nas florestas, Das folhagens do campo em meio da espessura, Das auroras de abril nas cristalinas festas.

Tecer no tronco seco ou no tronco viçoso O quente lar do amor, o carinhoso ninho, De onde sairá mais tarde o pipilar mavioso De um outro mais gentil e meigo passarinho.

Não temer o verão e não temer o inverno Para tudo alcançar na leve subsistência, No contínuo lidar, no labutar eterno, Que é talvez da alegria a mais feliz essência.

Viver, enfim, de luz e aromas delicados Nascido dentre a luz, gerado dentre aromas, Sonorizando o azul, sonorizando os prados E dormindo da flor sob as cheirosas comas.

Voar, voar, voar, voar eternamente, Extinguir-se a voar, no matinal gorjeio, E ser pássaro, é ter em cada asa fremente Um sol para aquecer o frio de algum seio.

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