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1861–1898

O sol e o coração

João da Cruz e Sousa

Sol, coração do Espaço que flamejas, O coração é qual tu, sol de utopias... Mas, coração, dize-me: — Que desejas?... Foram-se já todas as alegrias,

Ó Sol! E tu, coração, que ainda adejas, Que fazes sobre as mortas fantasias?!... Podes brilhar, ó Sol, vivo e fulgente! E tu, coração, que me iludiste,

Também podes bater, inutilmente. Crença, Ilusão, Amor, já nada existe, Não mais levarás sobre a corrente Da tenebrosa dúvida mais triste.

Longe, mui longe, em regiões caladas, Emudecidos pelo Esquecimento, Estão hoje esses sonhos de alvoradas. Foram-se, há muito, soltos pelo vento

Entre as grandes ruínas derrocadas Do meu amargo e pobre pensamento, Entre as profundas, tétricas ruínas Em que o doce fantasma desses sonhos

Atravessou em lágrimas divinas. Fantasma ideal, de cânticos risonhos Que da vida encontrei pelas colinas E hoje vaga entre bulcões medonhos!

Fantasma que eu amei, visão errante Que sempre junto a mim vivia perto, Por mais longe que eu fosse e mais distante. Visão que era como a água do deserto

Para o meu coração sempre anelante, Sequioso de amor e sempre aberto... Ó pobre coração, em vão te agitas, Em vão tu bates, coração estreito,

Tal qual tu, Sol, nos páramos crepitas. Nada mais, para mim, de satisfeito Brilha com o Sol nas plagas infinitas, Como não canta o coração no peito...

Podes, enfim, sumir-te nos Espaços Sol! E tu, coração, sempre batendo, Quebrar da terra os “Transitórios Laços” Eternamente desaparecendo!...

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