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1861–1898

O pomar

João da Cruz e Sousa

Nada mais fresco e mais purificado Do que um pomar todo ele aberto em flores, Onde um sol festival e purpureado Deixa cair brilhantes esplendores.

Fica tudo risonho e perfumado Quando das rosas vão se abrindo em cores. Tudo freme de beijos e harmonias, Harmonias de amor e quentes beijos

Acesos como as grandes alegrias Ou como as almas ébrias de desejos; E os pássaros — aladas fantasias, Vibram nos ninhos trêmulos harpejos.

De cada flor explode uma alvorada De aromas leves e canções cheirosas; E à luz do dia pelos céus vibrada Lírios, papoulas, violetas, rosas

Abrem num riso a boca delicada Cheio de emanações deliciosas. Nada possui mais cândida frescura Do que essa doce e casta natureza!

Tudo toma outro encanto e formosura, Uma irial e lírica beleza Quando o pomar na esplêndida verdura Pompeia falas, luxos de princesa.

E nada causa tanto encantamento Como sentir em roda da paisagem O aroma virginal que traz o vento Quando faz agitar toda folhagem

Num sutil arrepio brando e lento De momentânea, murmurante aragem. Há madrigais, idílios e ruídos Soltos, dispersos entre os arvoredos,

Idílios, madrigais indefinidos Dos amorosos, íntimos segredos... E dos altivos céus resplandecidos Descem os dias prósperos e ledos.

Toda a beleza do pomar encanta, Prende e seduz as almas e os olhares; E essa ventura emocional é tanta Que faz abrir os belos nenúfares

E faz cantar o coração, que canta Como todas as aves dos pomares.

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