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1861–1898

O duque

João da Cruz e Sousa

Quando o duque voltava da caçada Alegre num clarim d’aço vibrante De alacridade moça e evigorada Dum ruidoso e trêfego estudante.

Quando ele vinha com seu ar bizarro De atravessar os vales e as colinas, Sadio aspecto fresco como um jarro Cheio de leite às horas matutinas.

Em toda a aristocrática varanda Alta e vistosa, ampla, aberta em janelas, Ele vibrava, de uma e outra banda, Canções de amor, nostálgicas e belas.

Do salão nobre entre tapeçarias De Gobelins, riquíssimas e raras, Iam vibrando aladas harmonias Da sua voz, esplêndidas e claras.

Todas as fluidas, leves, calmas, frescas Manhãs azuis, serenas e formosas, Loura mulher das regiões tudescas O seu bom dia era mandar-lhe roses.

Floria, é certo, em grande amor, floria Gerado pelo eflúvio dessas flores, Pois quando o duque não as recebia Era o mais infeliz dos caçadores.

Tão doce amor lembrava aquelas lendas Dos medievais castelos esquecidos, Quando visões de nuvens e de rendas Apareciam nos balcões floridos.

A caça, a caça, eternamente a caça! Quanto melhor, mais fácil não lhe fora A conquista das aves do que a graça De conquistar essa beleza loura!

Para possuí-la como noiva amada, Aceso há muito nas paixões insanas, Arrostaria a caça mais ousada Dos javalis nas selvas africanas.

E sempre as lindas rosas matutinas Vinham-no perfumar todos os dias, Quando saltava aos vales e as colinas, Bizarro e são, dentre as tapeçarias.

Tempos passaram sobre tais amores! Mas depois de casado fez surpresa Saber que o duque, o rei dos caçadores, Não tinha o mesmo amor pela duquesa.

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